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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná

Saber Ouvir

20/10 15h28

Sou um ciclista convicto. Este não é o primeiro nem o último texto em que defendo os benefícios de se andar de bicicleta no cotidiano. O ciclista escapa de congestionamentos, não gasta com passagens, combustível ou estacionamentos. Não polui, se exercita diariamente e não precisa esperar por nada, vai aonde quiser, quando e como bem entender.

Talvez por isso eu tenha torcido o nariz quando recebi a primeira pauta a cumprir na minha nova editoria, a de Sociedade. A missão basicamente era fazer uma matéria sobre pedintes de ônibus. Isso me obrigava a usar, durante um bom período de tempo, as linhas do transporte público que sempre procuro evitar, firme em meus ideais ciclísticos.

Além disso, ainda estava um pouco atordoado com a estreia na função, havia passado um semestre inteiro escrevendo para Esportes. Naquele meio onde eu me sentia no paraíso, rodando despreocupado pelo universo dos atletas curitibanos, eu jamais precisei ficar sentado (ou não) em um banco de ônibus. Mas ali estava eu.

A situação era especialmente complicada porque os pedintes estão muito difíceis de, digamos, capturar. Eu precisava entrevistá-los, é óbvio, mas a prefeitura apertou a fiscalização contra a ação destas pessoas, o que as força a permanecer em um veículo durante dois, no máximo três tubos – sim, eles usam a linha de expresso biarticulado, para circular sem limites pagando uma só passagem – e logo saltar, para evitar que alguém os obrigue a descer. Assim, não me restava alternativa senão ficar parado em um ônibus, torcendo para que aparecesse um pedinte.

Depois de quase seis horas de espera inútil, o sol já havia dado lugar à escuridão adiantada do fim de tarde curitibano, e eu ainda estava lá, frustrado e derrotado. O horário do rush, entre seis e sete da noite, já havia passado, as pessoas saindo e entrando, o corredor ficava ora vazio, ora lotado, mas nada de aparecer um pedinte! Parecia que todos os indigentes da cidade haviam sido entregues à polícia pelos fiscais da URBS!

Quando já estava desanimando, cabeça encostada no vidro pensando em uma estratégia diferente para o dia seguinte, eis que toca em meu ombro um homem, que me entrega um bilhete e continua a andar, entregando papéis idênticos aos outros passageiros. Sonolento, dou uma lida rápida: “Sou surdo, ajuda por favor, 0,50 $, Deus dará em dobro, Renato Monteiro”. Finalmente! Tomado por um choque, tiro minha câmera digital da mochila, corro até o homem e o intercepto, para que não me escape! Saco do bolso uma nota de dois reais, para adoçá-lo, e me preparo para fazer as perguntas nas quais estava pensando o dia todo, quando de repente paro e sinto a alma gelar. Ele é surdo! Como vai responder à minha entrevista, se ele não pode me ouvir? Desesperado, tiro meu caderno e começo a escrever brevemente um bilhete pedindo para que me contasse basicamente a história de sua vida. Escrevo rapidamente, a letra sai um garrancho, ao final de cada palavra dou uma olhada para o pedinte para saber se ainda está ali, se ele sair eu terei que correr atrás dele. Enfim, passo-lhe o papel. A resposta está comigo até hoje:

“Eu não tem documentos. MM Renato Monteiro, 28/11/68, Piraju-SP. Mãe Deolinda Rosa Hernandes, Pai Benedito Ribeiro Leite. Por-favor. Eu fica triste, ajuda, precisa emprego. Sou sozinho, mora rua, perto rodoviária, posto”.

Ao terminar de ler, olho para Renato e vejo que está com os olhos lacrimejando. O biarticulado para, algumas pessoas saem para o tubo e ele as segue. A porta fecha antes que eu possa pensar em uma palavra de carinho ou de consolo.

Sigo no ônibus, àquela altura já meio vazio, e torno a me sentar. Fico refletindo sobre o que acabara de acontecer. Deveria estar feliz, depois de quase perder as esperanças naquela tarde vazia, eu consegui uma entrevista melhor do que imaginava e não voltaria para casa de mãos vazias. Talvez nem fosse preciso passar pelo martírio de andar de ônibus no dia seguinte!

Mas o que tomou conta de mim foi uma raiva surda. Um sentimento de impotência. Afinal, o que diabos eu estava fazendo ali? Qual era meu poder como jornalista? Eu não conseguia mais saber para que servia minha futura profissão, se eu não tivesse a capacidade de interromper toda a população de Curitiba em seus afazeres e lhes dizer: “Este é Renato Monteiro, um morador de rua. Ele é surdo e quer trabalhar. Por favor, alguém lhe arranje um emprego!”.

Sei que não posso amenizar minha culpa. Naquela noite, eu voltei para casa, jantei, tomei um banho e fui dormir. Três dias depois, entreguei minha matéria. E ele? Será que arranjou um trabalho, ou ao menos um lugar digno para morar? Será que eu fiz mais por ele do que faria qualquer louco que tivesse a coragem de lhe dar dois reais inteirinhos?

Tudo o que posso fazer é torcer para que alguém leia esta crônica, no caso de não ter lido a matéria, e o ajude, embora ele seja apenas um entre milhares de curitibanos na mesma situação. Quanto a mim, pelo menos começo a entender melhor qual é o papel da editoria de Sociedade. Ainda estou aprendendo a dar voz, através do Jornalismo, aos esquecidos, os renegados, os flagelados. Alguém precisa fazer isso por eles.

Rafael Neves
é estudante de Jornalismo da UFPR e repórter do Comunicação. Escreve também no blog nevesjornal.blogspot.com.


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