Em 25 de fevereiro de 1919 o jurista paraibano Epitácio Pessoa – que estava em Versalhes como chefe da delegação brasileira na Conferência que decidiria as reparações a serem pagas pela Alemanha às nações que a derrotaram na primeira guerra mundial – recebeu um telefonema do ministro (embaixador) brasileiro na França: de Paris ele lhe comunicava que o Partido Republicano, tendo em vista o falecimento do presidente da República recém eleito, o paulista Rodrigues Alves, e o precário estado de saúde do vice, o mineiro Delfim Moreira, decidira lançar sua candidatura para a eleição em que seria escolhido o novo presidente. Epitácio agradeceu, mas mandou informar que antes de regressar ao Brasil, viajaria à Itália, Bélgica e Estados Unidos, cujos governos o haviam convidado. Enquanto o candidato viajava tranquilamente, foi realizada a eleição – ele obteve cerca de 250 mil votos, contra 120 mil do adversário Rui Barbosa.
Em junho, o já presidente ainda estava em Washington e, pelo telégrafo, articulou a escolha do presidente da Câmara dos Deputados e do líder da bancada governista – o primeiro cargo ficou com um deputado mineiro, o segundo com um paulista. No fechado sistema político da chamada República Velha, que se estendeu da proclamação da República, em 1889, à revolução de 1930, coisas grotescas como essa não chegavam a surpreender. Mas, merece destaque o cuidado por ele demonstrado com a escolha do presidente da Câmara e do líder da bancada: um mineiro e um paulista. Naquela época, Minas Gerais era o Estado mais populoso, e por isso mais influente politicamente. São Paulo vinha a seguir, compensando com o poder da crescente economia cafeeira o menor eleitorado. O Rio Grande do Sul vinha em um mais distante terceiro lugar. Os demais eram figurantes.
Há uma tendência a reduzir o sistema político daquele período a um férreo acerto entre mineiros e paulistas para tomar conta do poder. Isso é verdade, embora não seja toda a verdade. O certo é que esse esquema de poder não estava baseado principalmente na origem geográfica dos postulantes, embora isso também pesasse na balança das escolhas. A política da República Velha foi uma permanente negociação entre lideranças fortes em seus Estados – e nela o eleitorado tinha reduzida importância. Ou mesmo nenhuma importância, como fica evidente no episódio da eleição bissexta de Epitácio Pessoa. Os políticos paulistas e mineiros apenas estavam no topo da pirâmide.
Os paulistas haviam se destacado no movimento pela proclamação da República – a famosa Convenção de Itu ficou sendo o marco mais brilhante daquela pregação. Assim, naturalmente, depois que o imperador Pedro II foi despachado para o exílio e cumpriu-se o desastrado período em que a Presidência da República foi exercida por dois militares, os civis se articularam para reaver o poder e os paulistas saíram na frente, com larga vantagem, sem que ninguém os contestasse.
De saída, São Paulo emplacou três presidentes sucessivos: Prudente de Morais, Campos Sales e Rodrigues Alves. Foi Campos Sales, pelas mãos do governador (então chamado presidente) de São Paulo, Rodrigues Alves, quem estruturou o arcabouço do que viria a ser a Política dos Governadores: os resultados das eleições populares passaram a depender da anuência das casas legislativas, as Assembleias, nas eleições estaduais, e a Câmara dos Deputados, nas eleições federais. Isso levou inevitavelmente ao sistema de partido único – o poderoso Partido Republicano Federal, na verdade um amontoado de Partidos Republicanos estaduais, algo semelhante ao nosso PMDB de hoje em dia. As divergências, quando se manifestavam, eram dentro do partido oficial, e lá mesmo eram solucionadas, sempre pela negociação, pois uma eventual vitória de um dissidente jamais seria reconhecida pela Assembleia ou pela Câmara.
Rodrigues Alves encaminhou naturalmente a candidatura do mineiro Afonso Pena para a sua sucessão. Era um veterano, muito mais influente e respeitado do que os governadores de Minas e São Paulo do momento – Francisco Antônio de Sales e Jorge Tibiriçá Piratininga, este um paulista nascido em Paris. Afonso Pena morreu antes de cumprir integralmente o mandato e abriu a brecha para que as lideranças tradicionais perdessem o controle da situação: o vice que assumiu, Nilo Peçanha, era fluminense, e à sua sombra cresceu rapidamente a influência do gaucho Pinheiro Machado. Para a sucessão de Nilo Peçanha ele astutamente articulou a candidatura do ministro da Guerra, marechal Hermes da Fonseca, e começou desde logo a articular sua própria candidatura para a sucessão do marechal. Isso acendeu a luz vermelha no arraial mineiro-paulista, cujas lideranças se articularam em torno do mineiro Wenceslau Brás. Providencialmente, Pinheiro Machado foi assassinado por um maluco e assim a política voltou à velha rotina, embora, de saída, com um novo tropeço: o sucessor de Wenceslau, o paulista Rodrigues Alves, morreu antes de começar a governar; o vice, o mineiro Delfim Moreira, tinha saúde delicada. Mas os poderosos chefões agora estavam novamente firmes no comando, e foi possível articular aquela sui generis eleição de Epitácio Pessoa.
Nesse acerto entre mineiros e paulistas, normalmente o candidato seria o governador de um dos dois Estados. Naquele momento, porém, São Paulo e Minas eram governados por dois novatos – Altino Arantes, em São Paulo, e Artur Bernardes, em Minas. Impor qualquer um deles seria uma ofensa às lideranças mais maduras do mundo político. O sucessor de Epitácio foi o mineiro Artur Bernardes, amadurecido pelo exercício de um mandato completo no governo de Minas. O sucessor foi o paulista Washington Luiz, que teve a infeliz ideia de tentar entregar o poder a outro paulista, o novato Júlio Prestes, ignorando a ambição do astuto e veterano líder mineiro Antônio Carlos de Andrade. Ofendidos, os mineiros aliaram-se ao projeto oposicionista do gaucho Getúlio Vargas e embora o governo, como sempre, vencesse a eleição, à custa de muita fraude, não ficou com o poder: foi atropelado pela Revolução de 1930, que tudo mudou.
De 1930 a 1945 o Brasil teve um só presidente: o gaúcho Getúlio Vargas. Os quatro primeiros anos como presidente provisório, comandante da revolução vitoriosa; outros três como presidente eleito indiretamente pelo Congresso Nacional; os outros oito como ditador incontrastado. Getúlio nomeou interventores para governarem todos os Estados e assim fez nascer uma nova geração de lideranças que trabalharam em surdina, durante a ditadura, e desabrocharam para a luz do sol, quando se restabeleceu o regime democrático, em 1945. E então aconteceu o imprevisto: Minas, que fornecera a maior parte dos políticos e intelectuais adversários da ditadura, signatários de um notável manifesto, com centenas de assinaturas, defendendo o restabelecimento da democracia, voltou à antiga posição de liderança; São Paulo, que lutara de armas na mão contra a ditadura, ficou marginalizado.
No novo sistema político formaram-se muitos partidos, mas apenas três realmente fortes: pela ordem de grandeza, o Partido Social Democrático, que reunia lideranças estaduais, algumas originadas ainda na República Velha, que tinham sido aliadas de Getúlio; a União Democrática Nacional, onde estavam lideranças também daquele velho modelo, mas adversárias do ditador; e o Partido Trabalhista Brasileiro, fundado pelo próprio Getúlio, fortíssimo no Rio Grande do Sul e figurante nos outros Estados.
Durante vinte anos, PSD e UDN alternaram-se no governo de Minas Gerais, rivais inconciliáveis, mas ali o PTB sempre foi pequeno. Em São Paulo, os três sempre foram pequenos, insignificantes mesmo. A política estadual, nos mesmos vinte anos, foi dominada pelo interventor nomeado por Getúlio, Adhemar de Barros, nos primeiros dez anos, e por seu inimigo Jânio Quadros, nos outros dez. Minas emplacou um presidente da República, Juscelino Kubitschek, que fez um governo notável; São Paulo emplacou Jânio Quadros, que fez um governo catastrófico, embora durasse poucos meses. E assim vieram vinte anos de ditadura militar, em que todos os políticos estiveram longe do poder.
A volta à democracia, enfim, foi uma conquista tenazmente batalhada ao longo desses vinte anos, e consagrou uma nova aliança política Minas e São Paulo, nas figuras exemplares de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. São Paulo, pioneiro na mobilização da opinião pública, desta vez obteve o reconhecimento nacional para suas lideranças, e voltou aos tempos gloriosos do pós-proclamação da República: dois presidentes paulistas vão governar o país por longos 16 anos. Ali se formaram os dois grandes partidos que dominam a cena política nacional, fortes em todos os Estados. Ali surgiu o novo movimento sindical, livre das amarras que no tempo do getulismo o tornavam dependente do poder público. Certamente, no Brasil já não se faz política pensando apenas, ou principalmente, em acomodar lideranças poderosas – agora o que conta é a opinião pública. Não há mais política de governadores para reconhecer ou não resultados eleitorais.
Ainda assim, o velho enigma novamente se coloca, desta vez apenas para a oposição: será possível Serra com Aécio? Serra sem Aécio? Aécio com Serra? Nem Serra nem Aécio? Estarão Minas e São Paulo unidos outra vez? E se estiverem, isso será bom para a política como foi das outras vezes? E se não se unirem, cairemos outra vez no precipício?