Equipados com apitos, máscaras cirúrgicas, nariz de palhaço e um tambor, os estudantes do curso de Medicina da UFPR caminharam nesta manhã pelas ruas do centro da cidade. As faixas carregadas pelos alunos traziam as seguintes frases: ‘Por uma Universidade 100% pública e gratuita’ e ‘Nunca operei. Posso te operar?’. Os mais de cem manifestantes se concentraram no Hospital das Clínicas (HC), passaram pelo prédio da Santos Andrade e terminaram o protesto na Reitoria, onde permaneceram sentados à espera de uma conversa com o vice-reitor, Rogério Mulinari.
O principal motivo da reivindicação é a falta de materiais biológicos para a realização de disciplinas práticas. Na última terça-feira (3), na matéria de Técnicas Cirúrgicas e Cirurgia experimental I, do 5º período, os alunos foram comunicados pelos professores que cada grupo formado por quatro alunos contaria com apenas um porco para os procedimentos realizados em laboratório. O que ocorria antes é que havia quatro animais por banca, assim cada aluno podia exercitar um procedimento em cada um deles.
Devido à redução, na quarta-feira (4) os estudantes nem permaneceram em aula, pois não havia as línguas de boi necessárias para as atividades que deveriam ser feitas. “As aulas deixaram de ser realizadas por falta de material”, afirma o estudante Jairo Vinicius Pinto. Os alunos do curso também reclamam que para essa mesma matéria eles precisam comprar um material que custa R$ 300,00. Além disso, as luvas, máscaras e toucas também saem por conta dos próprios estudantes.
Por uma estrutura melhor
‘Não agüento mais, assim não dá. Eu quero mais infra-estrutura para estudar’. Essa era uma das músicas cantadas durante a manifestação. De acordo com os alunos, não é só a disciplina de Técnicas Cirúrgicas que está comprometida. Segundo eles, há precariedade no fornecimento de materiais para a maioria das aulas práticas.
Os problemas de estrutura física também são grandes: o teto do laboratório onde a disciplina acontece está quebrado; as torneiras para higienização das mãos estão com problema no fechamento, desperdiçando uma enorme quantidade de água; um ar condicionado está há dez anos sem manutenção; e uma casa que compõe a estrutura do campus está interditada por risco de desabamento.
Para Pinto, a reivindicação mais imediata é a reposição de material para a realização das aulas, já para semana que vem. Mas, de maneira mais abrangente, a manifestação tem como objetivo a melhoria de estrutura para todas as disciplinas, visando à qualidade do curso. “Queremos a melhoria da infra-estrutura para esse e outros semestres”, reforça a estudante Rafaela Cleto Penteado.
Os dois alunos são categóricos ao afirmar que o protesto não tem o intuito de ir contra nenhuma disciplina e nenhum professor. “A briga não é contra a disciplina, nem contra os professores e sim contra a falta de responsabilidade da Universidade em fornecer material”, explica Rafaela. Os estudantes do curso dizem inclusive receber apoio dos professores e da coordenação.
Negociação
Após a passagem pelas ruas, a manifestação entrou no prédio da Reitoria e continuou o protesto no andar do gabinete do reitor. Após quarenta minutos de espera e de gritos como ‘Ô Mulinari, vem conversar, porque se não eu vou entrar’, estudantes e vice-reitor realizaram uma conversa aberta, no próprio corredor.
“A gente resolve os problemas na mesa de negociação e não na manifestação”. Apesar da afirmação, o vice-reitor tentou esclarecer algumas questões e propor soluções aos alunos. Para Mulinari, houve falha de comunicação entre a administração da Universidade e seus professores, já que seriam eles os responsáveis por trazer à UFPR os problemas enfrentados em sala de aula.
Sobre a reivindicação mais imediata dos alunos, o vice-reitor afirmou a existência de um re-planejamento da disciplina, onde a diminuição dos animais já estaria prevista. “Na minha concepção, sequer haveria animais nesse semestre”, comentou Mulinari. O planejamento não era de conhecimento dos alunos, nem da coordenadora do curso, a professora Claudete Reggiani. Segundo o vice-reitor, o problema se deve ao posicionamento da sociedade em relação a utilização de animais vivos para as aulas práticas e não à falta de verba. “A vive-secção não é mais aceita pela sociedade, ela tem dificuldade em aceitar o uso de animais vivos para esse fim”, argumentou ele. A proposta agora é encontrar alternativas viáveis para realização da disciplina, com o uso de tecidos biológicos.
Com exceção da casa antiga desativada por risco de desabamento, Mulinari afirmou que as outras questões levantadas pelos estudantes não eram de conhecimento da UFPR e propôs uma reunião para que fossem discutidas. O encontro com a coordenação de curso e professores acontece na segunda-feira (9), na Reitoria. Após a conversa de hoje, Mulinari abriu espaço para que cinco alunos estejam presentes durante a discussão.
“É uma questão muito pontual, de uma disciplina”, declarou a coordenadora do curso de Medicina da UFPR. Par a professora, os estudantes agiram de forma precipitada realizando a manifestação sem antes procurar esgotar todas as possibilidades de conversação e negociação.