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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 07/11/09 às 16h00

Salto alto é preferência entre mulheres, mas pode trazer danos à saúde

Apesar do perigo, elas não abrem mão da elegância conferida pelos calçados
Reportagem Luiza Vaz
Edição Luciane Belin
Aline Siomara - Reprodução
Dores lombares, nos pés e nos tornozelos são alguns dos males causados pelo salto
Dores lombares, nos pés e nos tornozelos são alguns dos males causados pelo salto

Rua 25 de Março, São Paulo (SP). Após seis horas de viagem chega o ônibus com comerciantes de Curitiba e região para a jornada de um dia de compras. A maioria dos consumidores está confortavelmente vestida, com roupas mais largas e tênis nos pés. Desce Josiane Maria Schausteck. Roupas alinhadas, apesar de viajar a noite inteira sem dormir. Cabelos escovados e, para sentir-se mais confortável para as compras, salto alto. “Não consigo ficar sem”, afirma.

Elegância, aumento da autoestima e, como no caso de Josiane, conforto. Essas são as justificativas das mulheres que não abrem mão de um sapato com mais de dois centímetros de altura. “Uma mulher com salto, principalmente no ambiente de trabalho, fica mais confiante”, garante Camila Grassi Rozin, de 21 anos, assistente de setor administrativo que tem aversão a sapatilhas e sandálias rasteiras.

A opção pelo uso de calçados baixos ou altos varia de acordo com o estilo de vida de cada mulher. “Só uso quando necessário: festas, baladas e ocasiões mais formais. Se não for assim, fujo do salto”, conta a educadora física Jéssika Cristina Mann, 24 anos, que usa tênis diariamente. Ao contrário dela, Josiane evita qualquer calçado mais baixo. “Tenho cerca de 200 pares de sapatos. Desses, apenas uns 10 são baixos”.

Elegância que prejudica

A professora de piano Eliane Regina Marquart passou a usar salto por necessidade. “Meu marido é médico e eu precisei ajudá-lo no consultório. Por se tratar de um ambiente mais formal, optei por usar calçados mais altos, já que são também mais formais”, explica. Ela conta também que o estilo das suas roupas começou a mudar e, aos poucos, estes modelos de sapatos passaram a fazer parte do seu dia a dia.

Após cerca de 15 anos de uso diário, Eliane começou a perceber consequências sérias da sua escolha. “Sentia muitas dores nos pés por causa do salto e bico fino. Cheguei a tomar medicamentos por causa das dores”. Há cerca de 10 anos a professora mudou seu estilo novamente, agora por uma questão de saúde.

O ortopedista do Hospital das Nações Celso Mendonça Junior explica que o uso prolongado e constante do salto alto pode acarretar uma série de distúrbios em várias partes do corpo (ver box). Josiane, que tem esse hábito desde os 15 anos de idade, já sentiu as consequências. “Tive encurtamento de patela. Hoje, se usar sapatos baixos por muito tempo sinto fortes dores”, conta.

Jéssika acredita que o conforto é prioridade na escolha do calçado. “Quando vou comprar um sapato alto fico horas dentro da loja caminhando com os modelos. Não quero sentir dores”, ressalta.

Nem sempre vilão

Apesar da possibilidade de machucar os pés e gerar dores e problemas ortopédicos, o uso do salto nem sempre é prejudicial. Mendonça explica que em casos de doenças inatas o uso pode ser saudável. “Portadoras de Tendão de Aquiles Encurtado Congênito têm a qualidade da marcha melhorada e alívio das dores no calcanhar pelo costume de calçar salto”.

O massagista Américo Merlin defende os modelos, desde que não muito altos, e seu uso diário tanto para mulheres quanto para homens. “O salto ajuda na postura, estica o corpo e os joelhos. Dificilmente uma mulher que usa sente dores nas costas”, garante.

Na contramão de muitos especialistas, Merlin afirma ainda que pisar com a ponta dos pés – posição obrigatória destes tipos de calçado – só traz vantagens. “A pressão no Cóccix [osso da coluna vertebral] e nos calcanhares é menor, o que é benéfico ao corpo. Os homens também deveriam optar sempre por sapatos mais elevados”, argumenta o massagista.

Entretanto, Merlin alerta para a altura ideal: “Saltos exageradamente altos podem ser extremamente prejudiciais. Os saudáveis têm cerca de cinco centímetros”.

Vida nas alturas

Segundo os principais sites de moda do Brasil e do mundo, são os calçados com os saltos mais ‘gigantescos’ que vão predominar nos pés das mulheres neste final de ano e no início do próximo. Josiane e Camila aprovam a tendência. Ambas usam diariamente saltos com cerca de 10 centímetros de altura. “Tenho baixa estatura e sou casada com um homem alto. Além disso, a mulher que usa salto é muito mais elegante”, justifica Josiane.

A comerciante conta que durante a vida universitária já era contrária a calçados baixos. “Tinha aulas no campus da Santos Andrade. Caminhava vária quadras do ponto de ônibus até a faculdade. Estragava alguns pares, mas, ao contrário de algumas colegas, não abri mão da elegância”, completa.

Eliane, que sofre com as dores causadas pelo salto, confessa não abrir mão do ‘companheiro’ de muito tempo. “Nos finais de semana me permito usar. Fico muito mais elegante”.

De acordo com o ortopedista Celso Mendonça Junior, os problemas causados pelo uso do salto alto podem vir acompanhados de dores e deformidades. As mais comuns são:

Calosidades nos pés, metatarsalgias (dores na parte da frente dos pés), hálux valgus (joanete), deformidades nos dedos como ‘dedo em martelo’, tendinites e encurtamentos como a dos tendões dos fibulares do Tendão de Aquiles.

O encurtamento do Tendão de Aquiles é o problema mais frequentemente associado ao uso do salto alto.



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