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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 13/11/09 às 08h53

Graxa em mãos delicadas

Mulheres fogem à regra e contam como se tornaram especialistas em mecânica
Reportagem Katy Mary de Farias
Edição Luciane Belin
Katy Mary
Entre um chimarrão e outro, Eloá está sempre pronta para colocar em prática o ofício que aprendeu há 30 anos
Entre um chimarrão e outro, Eloá está sempre pronta para colocar em prática o ofício que aprendeu há 30 anos

A estudante de Administração, Karime Cavalheiro (20) se dedicou ao ballet clássico desde a infância. Entretanto, não foram as sapatilhas que lhe encantaram, mas as peças e motores da oficina do pai. Desde os dez anos já sabia trocar pneus e foi nesta mesma época que nasceu a fascinação por carros e experimentos mecânicos. O interesse a levou a lugares mais além da empresa do pai. Quando foi convidada para estagiar na área de marketing de uma concessionária, Karime sempre dava um jeito de escapar para a oficina da empresa. “Um dia o diretor perguntou qual era meu verdadeiro interesse pelo trabalho, se era o escritório ou a oficina. Respondi que era a oficina”.

Confissão feita, lá foi a jovem, na época com 18 anos, trabalhar como auxiliar mecânica em uma das maiores fabricantes de carros do mundo. “Foram tempos inesquecíveis. Aprendi muito e pude colocar em prática tudo o que eu mais amava fazer.” Karime trocou pneu, óleo, fez reposição de peças o tudo mais que lhe era permitido. Mesmo sendo a única mulher na oficina conta que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por parte dos colegas de trabalho. “Até meu creme para as mãos eles pediam emprestado!”. Já pelos clientes, nem sempre foi bem aceita. “Algumas vezes, quando ficavam sabendo que era eu quem iria lhes atender, pediam por um mecânico homem.”

A aprendiz, que costuma assistir a corridas de carros, confessa que o que mais lhe atrai são as “máquinas” antigas. “Monza, Chevette, Santana. Esses são os melhores para serem tunados”. Para os leigos, ela explica que o termo, que vem da palavra inglesa tuning, significa ajustar ou personalizar carros para torná-los mais bonitos e com um estilo diferenciado.

O futuro

Mesmo com tanta paixão pelos automóveis, Karime decidiu deixar o ofício e voltar para área administrativa. Com tanto talento para trabalhar na área, ela justifica porque não optou por cursar Engenharia Mecânica: “Como pretendo montar minha própria oficina, preciso me tornar uma gestora. É claro que quando tiver vontade voltarei a consertar”. Mesmo assim os amigos continuam lhe pedindo ajuda nos ajustes e manutenção dos carros, atividade que diz fazer com o maior prazer. Se a moça tem um carro dos sonhos? “Um Chevette Tubarão na cor vermelha”.

Profissão induzida

Em 1983, aos 30 anos, Eloá Sieika ficou viúva com três filhos para criar – o mais novo tinha apenas cinco meses. Na época, ela ajudava o irmão em uma borracharia cuidando da parte administrativa. Quando o marido faleceu, o sócio-irmão mudou-se de cidade e deixou o negócio para ela tomar conta. “Como não havia outros homens na família e precisava sustentar as crianças, não tive alternativa a não ser aprender o ofício de borracheira”.

Hoje, 25 anos depois, Eloá relembra com serenidade e alegria de tudo o que passou. Garante que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito e afirma que tarefa alguma é difícil ou trabalhosa. Prova disso é que, mesmo depois de 12 horas de trabalho, ainda termina o dia com disposição. Na oficina, que sempre funcionou no bairro Capão da Imbuia, entre um serviço e outro ela consegue tomar o chimarrão, seja sozinha ou em companhia de algum cliente. Assim como Karime, ela não tem carteira de motorista e diz que isto não a impede de desempenhar bem o seu trabalho.

Seu braço direito é Juca, o filho mais novo. Ele a ajuda, diariamente, há quase três anos, exceto aos domingos pela manhã e diz que já está na hora da mãe descansar. “Como moramos na parte superior da oficina, mesmo quanto não estou trabalhando, ouço a movimentação. Não adianta, trabalhar domingo já é um hábito que ela criou”. A borracheira nunca deixa os clientes na mão. Já perdeu as contas de quantas vezes abriu a oficina em horários de folga para atender as emergências.

Quando o estabelecimento fecha, entretanto, ela procura aproveitar o tempo para lazeres bem femininos. “Preparo um lanche, assisto às novelas, faço tricô. E sempre que possível, cuido das mãos e unhas.” O ritual de beleza inclui creme hidratante e esmalte vermelho, para jamais deixar a feminilidade de lado.



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