Raphael Campos tem 12 anos e um interior tão vasto e complexo quanto o de qualquer pessoa da sua idade. De aventuras com vampiros a peripécias mirabolantes num grupo de amigos, ele imagina, ao mesmo tempo e sem intervalo para sua mente descansar, infinitas situações. Foi ao escrever que ele aprendeu a separá-las, dar sentido e não desperdiçar nenhuma.
O caminho de Raphael no mundo da escrita teve início com um curso na Associação Brasileira de Letrinhas (ABLetrinhas), que tem como objetivo final a produção de um livro impresso e ilustrado. “O pequeno escritor participa de todas as etapas da construção, desde o planejamento até a editoração e impressão”, conta Vivian Campos, uma das professoras.
O módulo 'Letrinhas – Escrevendo Meu Primeiro Livro' dura seis meses e dois deles são destinados ao estudo das normas de redação. “Nesse período, eles aprendem a diferença entre narrar, dissertar e descrever uma história, além de técnicas para se produzir um bom texto”, explica Vivian. A academia dispõe de um material didático próprio – 'Letrinhas: o texto passo a passo' – que oferece um roteiro para a construção de redações e mostra que escrever não é um bicho de sete cabeças. “Nos quatro meses seguintes, os alunos desenvolvem uma ideia para transformá-la em literatura e têm aulas de desenho para ilustrar sua obra”, completa a professora.
Equilíbrio de dentro para fora
A proposta vai além do mero estímulo à produção literária e ousa interferir até mesmo no equilíbrio espiritual das crianças, para que desenvolvam uma personalidade forte. Lá, o livro é a ligação entre o meio interno dos autores e o que está fora deles. “Ao colocar no papel alguma situação imaginada por dentro, elas têm que pesquisar seu próprio interior, estudar-se internamente”, explica o proprietário do espaço Hamilton Vilela Magalhães. Ele acredita que a obra pronta, com o texto e as ilustrações produzidas pela criança, reproduz de forma concreta a abstração interna do pequeno autor. “Os alunos aprendem a exteriorizar o que têm e enxergam em palavras e imagens”, revela Hamilton.
O livro de Raphael narra as aventuras de um grupo de amigos. “Antes eu falava sobre um vampiro, mas resolvi mudar. ‘Tava’ muito complicado. Mas você deveria ler esse aqui quando eu acabar, é uma história interessante”, diz, já com a ambição de conquistar leitores. “É esse interior complicado que tentamos desembaraçar e sistematizar no curso”, intervém Hamilton. Ele explica que a faixa etária dos participantes do programa varia entre oito e 12 anos, idade em que as pessoas apresentam os mais fortes vínculos com as instituições sociais, como família e escola. No entanto, aos 14 ou 15 anos, essa ligação já não é mais tão intensa. “Se as crianças não têm equilíbrio interior, são mais facilmente influenciáveis pelo meio. Queremos que sejam sensatas e que saibam se gerenciar”, conclui Hamilton, para quem a escrita contribui para a formação da cidadania.
Igualzinho gente grande
Após seis meses de aulas de redação, desenho e reviravoltas interiores, os jovens literatos são condecorados como membros da Academia Brasileira de Letrinhas. “Há uma solenidade de entrega dos certificados que os oficializa como acadêmicos. Recebem até carteirinha”, conta Vivian. O espaço dispõe de ateliê artístico, tintas, quadros, cores e estantes com quase cinco mil livros à venda, capazes de enlouquecer qualquer criança apaixonada por arte – e encantar até as que não são.
Assim como na academia dos adultos, os escritores juvenis da ABLetrinhas se reúnem uma vez por mês na sede da instituição para discutir temas relacionados à literatura e cultura brasileira. Desde que foi fundada, em 2007, cerca de 25 crianças já publicaram títulos pela editora própria da ABLetrinhas, a Letternet Editora.
Todo sábado, às 15h, há roda de leitura de histórias, aberta ao público.
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