Poucos minutos depois de se sentar na cadeira de uma das salas do Teatro Lala Schneider já se suspeita: a peça é inusitada. Um homem circula em uma pequena cela como quem sofre a maior das angústias. Enquanto isso, o público ouve o disco Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, e se prepara para o que vem por aí. Com música de Raul Seixas e texto de Paulo Leminski, a peça 'Agora é que são elas' trata da insanidade e da angústia de um homem que se vê cercado de questionamentos, de situações absurdas e mulheres lindas.
'Agora é que são elas' não é recomendável para aqueles que gostam de histórias lineares, pois, como consta na contracapa do livro homônimo que a inspirou, se trata de uma “novela com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, é claro)”. Demora-se a entender que se trata da história de um homem com perturbações enormes por causa de um tratamento com seu psicanalista. É difícil distinguir o que é realidade e o que é fantasia, quem são os personagens reais e quem são os imaginários e, especialmente, que está são e quem está louco.
Essa confusão não é, porém, um erro, mas sim o diferencial do espetáculo. O uso do nonsense é claramente proposital para gerar estranhamento e questionamento – talvez o grande objetivo da arte contemporânea. A escolha de Leminski e Raul Seixas também não é por acaso. João Luiz Fiani, diretor da peça, afirma que os dois artistas são espécies de gênios incompreendidos, muito à frente de nosso tempo. O ‘Maluco Beleza’ e a ‘A Besta dos Pinheirais’, por denominação própria e acusação de outros, podem ser considerados loucos. Mas prefiro dizer que eles simplesmente apagaram a linha tênue que separa a genialidade da loucura.
O elenco, composto por atores locais da Metáfora Cia. de Teatro, não decepciona nem um pouco. Apesar de trágico, o se torna bastante divertido por fazer um bom uso do humor. A única grande falha é a duração: a peça tem duas horas e, em certos momentos, fica um pouco cansativa.