Se há um ótimo lugar para refletir sobre as pequenas cotidianices, esse lugar é o ônibus. Seja uma cena curiosa, um papo alheio ou até mesmo as aventuras e desventuras particulares. Há aqueles que conseguem abstrair mesmo em meio ao barulho, outros precisam de subterfúgios como um aparelho tocador de mp3, pois se a tecnologia criou essas benesses, criou também os manos que escutam rap ou hip hop no autofaltante de seus celulares.
E foi justamente no ônibus que, dias atrás, tive pena de Deus. Ainda quero encontrar alguém que nunca viajou com algum pedinte nos biarticulados de Curitiba. No começo eu tinha dó dessas pessoas, da senhora que vende jujubas e cata latinhas, do cego que vende marca-páginas, do menino cuja mãe é doente e tem mais sei lá quantos irmãos e precisa dos trocados para ajudar no sustento da família.
Até que parei para refletir sobre o discurso desse povo. Alguns começam com “eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas estou aqui pedindo a ajuda de vocês (ou seja, a nossa)”. E me senti ameaçado. Pois de fato é uma ameaça. Eles nos dizem: “se vocês não me ajudarem, eu vou para a rua, vou matar e vou roubar!”. Inconscientemente, as pessoas são coagidas e começam a procurar por algumas poucas moedas. Assim garante a sua já debilitada segurança pública.
Outros começam invocando o nome de Deus. Se eu fosse algum religioso, reprovaria pelo fato de tomar “o santo nome de Deus em vão”. Mas os reprovo por mais uma vez intimidar as pessoas. Se a ameaça de roubá-las ou matá-las não surtiu efeito, agora eles apelam para a cristandade das pessoas, que se sentem acuadas diante da possibilidade de serem taxadas de maus cristãos. Se não bastasse o autoflagelo, todos se encaram, pensando consigo “se alguém doar algo, terei de fazer o mesmo”. É quase um olhar acusador, como se todos estivessem com uma pedra nas mãos, prontos para condenar o mau cristão.
Seja no ônibus, ou abordado na rua, quando alguém não doa alguns centavos, o pedinte é quem atira a primeira pedra, dizendo “Deus te abençoe!”. Ou seja, você, mau cristão, mesmo não tendo dar de comer a quem tem fome ou de beber a quem tem sede, será abençoado (e perdoado) por Deus.
Disse que tenho pena de Deus, porque a ele sobra fazer o que ninguém teve coragem. Se o problema é de ordem pública, os estigmatizados já se deram conta da ineficiência das autoridades. É preciso crer no maravilhoso para acreditar nas melhoras vindouras. Se é o nosso comportamento individual, mesmo que coletivamente, os olhos de Deus hão de perdoar aqueles cujos olhos dos degredados filhos de Eva condenaram.
No capítulo “O grande inquisidor” de “Os irmãos Karamázov”, Dostoievski traz um monólogo, em que um bispo, na época da grande Inquisição, encontra Jesus reencarnado. Eis que o bispo lhe diz: “Não desceste da cruz quando zombavam de Ti e Te gritavam por troça ‘Desce da cruz e acreditaremos em Ti.’ Não o fizeste, porque não querias escravizar de novo o homem com um milagre; desejavas uma fé que fosse livre e não inspirada pelo maravilhoso”.
No entanto, o homem está escravizado pelo maravilhoso e esvaziado em espírito e por isso deixa-se influenciar por esses discursos, até mesmo quando ele é proferido por quem legitimamente deveria levar a palavra e o amor de Deus. Há um egoísmo latente, cada qual buscando seu quinhão, aquele que pede usa Deus para atingir seu objetivo e os que doam usam-no para a tranquilidade pessoal da “consciência limpa”, na certeza de que, ajudando os falastrões da mendicância, assim estão afastando o risco de ser mortos ou roubados ou, pior ainda, taxados de maus cristãos.