Artista plástico, ilustrador, chargista, cartunista, quadrinista, professor, escritor e jornalista. Incomum atribuir tantas funções a apenas uma pessoa. Mas este não é o caso de Claudio Seto. De fundamental importância, Seto foi quem trouxe o mangá (histórias em quadrinhos japoneses) ao Brasil e o matsuri (festivais típicos do Japão) à capital paranaense. Um ano após sua morte, familiares e amigos homenagearam e expuseram sua vasta obra na Praça do Japão, em novembro.
Com exposições, cerimônias religiosas e palestras sobre mangá e haicai, o tributo atraiu não apenas admiradores de longa data, mas também curiosos da cultura oriental que viram uma boa maneira de aprofundar seus estudos. Para a organizadora do evento Maria Helena Uyeda, um dos motivos do tributo reside na inteligência artística de Seto. “Ele é um artista multimídia”, conta.
Criações
Criador da Maria Erótica na década de 80, o mais conhecido de seus personagens, Seto também carrega em sua bagagem artística certa carga de sensualidade. Para seu filho Noriyassu Seto, tudo não passava de um deboche. “Maria Erótica é uma gozação ingênua”, diz. Dedicado também ao público infantil, o artista criou a ‘Turminha do Seto’, tiras publicadas no extinto jornal Correio de Notícias. Como escritor, foi um forte adepto do haicai, além de se dedicar à elaboração de contos.
Seto era conhecido como o Mestre Samurai entre seus alunos, amigos e admiradores. Graduado em filosofia e artes plásticas, ele conseguiu unir as duas faculdades em sua obra. Segundo seu filho, Seto procurava sempre fugir do convencional. “Ele não se contentava com o comum. Ao invés de fazer um simples bonsai, fazia um bonsai de jabuticabeira”, afirma. Idêntico ao seu apelido foi o nome de uma de suas revistas de mangá. ‘Samurai’ é hoje considerada a primeira revista deste estilo feita no Brasil, fato que eterniza a figura de Seto na arte brasileira.
Bom humor
De acordo com Noriyassu, Seto era um homem dedicado. “Tudo o que ele fazia, entrava de cabeça”, diz o filho. Como pai, costumava ser liberal. Enquanto indivíduo, possuía uma dose cavalar de humor em seu cotidiano. Prova disso foi seu 60º aniversário. A festa, que era para ser surpresa, foi descoberta pelo artista, e quem surpreendeu os convidados foi o próprio aniversariante. Ao descobrir a trama, Seto se vestiu de mulher e foi à comemoração sem que ninguém percebesse. Impacientes com a presença da mulher desconhecida, os convidados perceberam então quem era a tal suposta convidada. O acontecimento hoje é motivo de risos para parentes e amigos.
Para homenagear o talento de Claudio Seto, será lançado em março de 2010 o documentário ‘O Samurai de Curitiba’, de Rober Machado e José Carlos Padilha. Segundo Rober Machado, a ideia do filme iniciou em função de seu interesse pela Grafipar – gráfica que publicava quadrinhos eróticos e policiais no final da década de 70. “No início a intenção era fazer um documentário sobre toda essa obra”, diz. Mas, as pesquisas referentes ao assunto conduziram Rober à Seto, artista de destaque na época. Com cenas gravadas enquanto o quadrinista ainda era vivo, ‘O Samurai de Curitiba’ promete capítulos inéditos da história desta grande personalidade.
Um pouco mais sobre Cláudio Seto:
- Aos nove anos foi para o Japão estudar num templo. Nos finais de semana ia até o estúdio de Osamu Tezuka, considerado o pai do mangá moderno.
- Depois de oito anos retornou ao Brasil e trabalhou com publicidade. No final da década de 60 integrou a recém-fundada Editora Edrel, onde foi o pioneiro ao utilizar o estilo mangá nos quadrinhos brasileiros e produzir sagas de samurais e ninjas. Também produziu histórias de conteúdo adulto, em plena ditadura militar.
- No final da década de 70 foi desenhista na editora curitibana Grafipar e editor de alguns títulos. Com o fim da Grafipar, Seto publicou poucas histórias em quadrinhos, entre elas destaca-se 'A História de Curitiba em Quadrinhos', feita em comemoração aos 300 anos da cidade.
- No fim da vida fez charges para os jornais Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná e dedicou a organizar eventos culturais da comunidade japonesa. Também lançou um livro contando a história da imigração japonesa no Paraná e escreveu sobre lendas do Japão para o jornal Nippo-Brasil, que foram organizadas em livros.
“Verdejante
À mesa posta
Verde jante”
“Sinal vermelho
Não para o vento
No cruzamento”
“Noite sem lua
Na escuridão do quarto
Salário minguante”