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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
24/11/09

Síndrome do técnico

por Gabriela Bastos*

Domingo à tarde é dia de futebol. Seja em frente à TV ou no estádio lá estão eles, fiéis, ansiosos e confiantes (nem sempre tão confiantes). Desmarcam os compromissos, esquecem o aniversário da mãe, adiam o casamento ou a lua-de-mel. Eles não podem deixar de ver o seu time do coração entrar em campo. Não importa se é para brigar pelo título ou escapar do rebaixamento, se o time vai bem ou mal das pernas. Eles estão sempre lá.

Os torcedores de futebol (e me incluo nessa categoria) são tipos engraçados. Alguns em níveis mais elevados que outros. Torcer é ao mesmo tempo sofrer e alegrar-se. Pessoas que passam instantaneamente por sentimentos tão contraditórios definitivamente não podem ser normais. Ao descrever esse estranho ser, o risco de cair no senso comum é iminente, já que o esteriótipo de um torcedor de futebol já está no imaginário coletivo.

Mas nos últimos tempos atentei para um detalhe que antes talvez me passasse despercebido. Algo que é tão intrínseco às minhas tardes de domingo que não me permitia chegar a esse diagnóstico. O torcedor de futebol sofre de uma grave doença: a síndrome do técnico. A moléstia passa por vários estágios e sintomas. O primeiro e mais evidente deles é o seguinte, torcedor de futebol é como freguês, tem sempre razão. Não importa os argumentos do técnico do time, dos jogadores ou dos outros torcedores, ele sempre está certo.

Se a jogada é pela direita ele insiste que seja pela esquerda, e se o gol não sai é porque ninguém o ouviu, se sai, foi sorte. Se o jogador chuta e erra o gol é porque foi ‘fominha’, se toca e o companheiro perde, ele deveria ter chutado. Ele discute com o árbitro, com o bandeirinha e com quem mais ouse discordar de sua análise tática. Ah se ele fosse o técnico, se ele fosse o jogador, se ele fosse o árbitro. Tudo seria perfeito.

Outro sintoma característico dessa síndrome, que nem todos desenvolvem, é a superestimação da audição dos jogadores em campo. O torcedor grita com todas as suas forças o que o jogador deve fazer. “Toca, toca, toca!!!” ou “Volta defesa, volta, volta!!!” (sempre repetindo as palavras para que o jogador entenda bem e com muitos pontos de exclamação para dar ênfase à ordem). Os que não desenvolvem esse sintoma, ainda assim dizem as mesmas frases, ou para si mesmos ou para aqueles que estão ao lado assistindo ao jogo.

Em um nível um pouco mais avançado, o torcedor quer controlar as substituições da equipe. Ele, não o técnico, sabe exatamente quem deve sair e quem deve entrar. E aí ele superestima também a audição daquele homem na beira do campo que está sob o seu comando. “Fulano tem que sair, manda o Beltrano aquecer!!!”, “Tira um zagueiro e bota um atacante, o time tem que ir pra cima!!!” (sempre mantendo os pontos de exclamação).

O jogo acaba. E é claro, o juiz errou nos acréscimos. Ou deu tempo demais ou de menos (tudo depende se o seu time está ganhando ou perdendo). Aí vem o último sintoma: a análise do jogo. O torcedor sabe exatamente porque o time perdeu, ganhou ou empatou. Sabe quais foram os erros e acertos, quem foi o melhor e o pior em campo. Sabe todas as justiças e injustiças cometidas pelo trio de arbitragem. E sabe também o que deve ser feito na próxima partida. Ah, se ele fosse o técnico, seu time seria sempre campeão!

* Gabriela Bastos é estudante de Jornalismo da UFPR


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