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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 14/12/09 às 21h23

Courrier: o homem que transporta esperança

Apesar de pouco lembrada, função do carregador de órgãos é indispensável no processo de transplantes
Reportagem Katy Mary de Farias
Edição Luciane Belin
Katy Mary de Farias
Uma simples maleta que carrega a esperança de uma nova vida
Uma simples maleta que carrega a esperança de uma nova vida

Paulo Feitosa chegou há poucos dias de San Diego, nos Estados Unidos. Ele não foi a passeio. Nem tampouco para realizar atividades na área em que trabalha. Os mais de 15 mil quilômetros de distância percorridos com seis horas de atraso tinham um motivo bem mais incomum. Feitosa é courrier de órgãos. Sua missão é buscar no exterior medulas ósseas cada vez que um dos mais de 500 pacientes que esperam por um transplante no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) encontra um doador.

Há 30 anos o Hospital das Clínicas realizava o primeiro transplante de medula óssea. De lá para cá, o número de pacientes transplantados já chega a 1668.

Fonte: HC

O trabalho é totalmente voluntário e é realizado por cerca de dez pessoas em toda a UFPR, incluindo médicos, enfermeiras e, eventualmente, funcionários de outros setores. Exceto pelas despesas de deslocamento, hospedagem e alimentação, cobertas pelo Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea (Redome), instalado no Instituto Nacional de Câncer (Inca), os voluntários não ganham nem um centavo para realizar a tarefa.

Feitosa, que trabalha como analista de sistemas no Centro de Computacão Eletrônica (CCE) da Universidade, conta que se tornou voluntário por conta de um grande acaso. Em 2003, quando decidiu participar de um programa de doação de medula, teve sua adesão negada. O motivo foi a Hepatite B contraída na juventude. No mesmo ano, porém, conheceu a mulher que trabalhava justamente na área de pesquisa e busca de doadores de medula óssea. “Foi uma dupla e feliz coincidência“.

A primeira viagem

Depois de preencher todos os requisitos necessários (e que não são poucos) para se tornar um courrier, Feitosa parte para o primeiro destino, Richmond, na Virgínia. “A primeira experiência foi de muita tensão. Chegava a hora de embarcar e nada da medula”. Depois de perder o primeiro voo, ele conseguiu embarcar para o Brasil, sem maiores problemas. Todos os courriers, obrigatoriamente, viajam com passagem de retaguarda, que é um segundo bilhete com horário de voo diferenciado. É um “plano B” indispensável em situações como essa. Nestes seis anos, Feitosa já viajou 11 vezes e a passagem de reserva precisou ser utilizada em duas situações.

Além do atraso e perda de voos, o courrier também já passou por outras situações memoráveis. Uma delas ocorreu em Nova York, com um taxista que o levou ao aeroporto. “Era um indiano que não falava inglês e não sabia o trajeto. Desci no carro e saí correndo pelas ruas atrás de outro táxi”, lembra, rindo da situação. A mais complicada e a que gostaria de apagar da memória aconteceu na última viagem. “Por causa do atraso do voo, tive apenas 16 minutos para fazer a conexão. Literalmente, dei de cara com a porta do avião fechada”.

Uma importante característica que todo o courrier deve ter em situações como esta é a calma. “Na maioria dos casos, o diálogo sempre resolve, mas dessa vez não foi suficiente.” Mesmo revelando ao staff da companhia aérea o que carregava na maleta e mostrando todos os documentos de autorização, não houve consenso. Feitosa não teve outra saída a não ser anotar o nome de todas as pessoas que lhe negavam ajuda e ameaçar denunciá-los aos órgãos competentes. “Infelizmente, muitas pessoas não estão preparadas para resolver conflitos, mas apenas cumprir ordens”. Segundo ele, essa foi a primeira vez em que a situação fugiu do controle.

Em 2009, já foram realizados 44 transplantes de medula óssea no HC. Na fila de espera estão 544 pacientes.

Fonte: HC

Altruísmo ou egoísmo

Para Feitosa, é sempre um momento delicado quando o telefona toca e alguém do outro lado lhe avisa que é hora de partir. “É uma tensão controlada. Não é desesperadora, porém não deixa de ser uma tensão”. Mesmo falando inglês fluentemente (ele morou nos Estados Unidos por muito tempo, sendo inclusive alfabetizado no idioma), confessa que, quando pega a caixa com a medula, transforma-se em outra pessoa. E quando a entrega no hospital também é um momento especial, todas as vezes.

Para ele, não é só a questão do dever cumprido. “Carrego comigo duas explicações sobre o porquê de se fazer esse trabalho. A primeira é inspirada em uma citação dos evangelhos, repetida por São Francisco de Assis: ‘Faça pelo próximo o que gostaria que fizesse por ti”. A segunda é muito baseada em meus próprios sentimentos, e que às vezes considero até meio egoísta – ‘poderia ser eu…’”.

Escolha, não seleção

Para se tornar um courrier, não basta, apenas, ser funcionário da UFPR, dominar o inglês (nos casos em que o órgão deve ser coletado no exterior), ou dispor de um cartão de crédito internacional para gastos emergenciais. Além dessas questões, é imprescindível que haja um elo de confiança entre voluntário e a equipe responsável pelo transporte.

Margareth Kleina-Feitosa, farmacêutica bioquímica e coordenadora do setor de busca de doadores de medula óssea do Hospital de Clínicas, explica: “De forma alguma é um processo seletivo. As pessoas são escolhidas pela convivência, interesse mútuo com a questão e acima de tudo pela confiabilidade”.

Neste ano já foram transportadas 16 medulas ósseas pelos courriers e mais sete unidades por empresas especializadas (casos em que o cordão umbilical está congelado e desta forma pode ser despachado). De acordo com Margareth, o número de transportadores voluntários é satisfatório. “A equipe tem conseguido, sem problemas, atender a demanda”.



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