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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
16/12/09

Cegueira motorizada

por Nayara Brante*

Ré, pequena curva à direita, primeira marcha, curva à esquerda, apertar o botão do controle do portão, freio, apertar o outro botão do controle do portão, seta, primeira marcha, curva à direita. Sim, quase sempre à direita, quase sempre o mesmo caminho. E desde que tenho um carro tem sido assim — ao menos em todos (absolutamente todos) os dias úteis. Não que isso seja muito diferente de quando andava pelas minhas próprias pernas ou pegava um ônibus: tirando as trocas de marcha e a seta, o resto era basicamente a mesma coisa. O que muda, no entanto, é minha relação com o mundo.

Moro em um bairro que está começando a crescer somente agora. Os grandes terrenos estão sendo vendidos a não tão grandes construtores, que fazem nascer vinte sobrados no mesmo espaço onde antes cabia um. Isso significa que mês a mês novas pessoas circulam pelo bairro, as placas e anúncios se multiplicam, o comércio se expande, e sempre que você sai de casa se dá conta de que o mundo corre depressa. Os tijolos viraram paredes, que viraram casas, que viraram um todo pulsante.

Mas, como eu estava dizendo, isso é para quem caminha. Desde março, no entanto, eu vivo numa bolha de quatro rodas. E não me entendam mal: eu amo a minha pequena bolha azul, seu conforto, comodidade, silêncio, rapidez, som com entrada para pendrive. Não o trocaria por nada. Mas isso não o faz menos uma bolha: dentro dele meu mundo é outro, completamente diferente e infinitamente mais restrito. Explico.

No último domingo, eis que preciso comprar pão. Nessas situações, o que geralmente acontece é eu pegar o carro e ir dirigindo até uma padaria um pouco distante. Existe sim uma perto de casa, mas que não oferece muitas variedades. Com a minha bolha, ando um pouquinho mais (ou, melhor dizendo, menos) e minhas possibilidades de escolhas entre broas, pães, bolos e tortas se multiplicam.

Mas nesse domingo em especial eu resolvi ir até a padaria da esquina mesmo. E, olhe só, por pouco não acho que errei de casa e estou em uma rua que não é a minha. Olha lá aquela casa, desde quando ela é verde? Nossa, a academia já começou a funcionar! Como está gordo o cachorro do vizinho... E desde quando essa subida é tão íngreme?

Enfim, um mundo de pequenos detalhes saltou aos meus olhos. E, justamente por serem pequenos, são imperceptíveis aos motorizados, preocupados com o carro da frente, o sinaleiro, o radar.

Na volta, a surpresa chega a ser maior, e mais dolorida. O muro da minha própria casa e sua trepadeira que já tem meio metro. Faz-me lembrar o dia em que meus pais a plantaram, com camisetas sujas de terra e sorrisos estampados na cara. Parece tão recente! Mas eu não vi a trepadeira crescer. No muro da minha própria casa. Minha casa. O muro.

O que mais eu perdi?

* Nayara Brante é estudante de Jornalismo da UFPR


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