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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Ciência & Tecnologia | Publicada em 17/12/09 às 14h35

Elixir da memória

Remédios utilizados por pessoas com déficit de atenção ganham adeptos entre empresários e estudantes
Reportagem Luan Galani
Edição Luciana Galastri
Dean Thompson
O uso de drogas psicoativas feito por indivíduos saudáveis está se tornando cada vez mais comum
O uso de drogas psicoativas feito por indivíduos saudáveis está se tornando cada vez mais comum
Leandro Martinez
A ritalina é um remédio que deve ser consumido apenas por pessoas com déficit de atenção ou hiperatividade
A ritalina é um remédio que deve ser consumido apenas por pessoas com déficit de atenção ou hiperatividade

Você não dormiu, seu cérebro está em frangalhos, você não consegue fazer uma simples adição e as palavras lhe faltam. Mas você está prestes a participar de uma reunião ou a fazer uma prova que pode mudar a sua vida. Tanto quanto essa situação é comum, a solução é simples: você toma uma pílula – a ritalina.

Embora essa situação lembre as aventuras de Asterix e Obelix, em que o personagem da Gália e seus amigos tomavam uma poção mágica e instantaneamente ficavam preparados para enfrentar as legiões romanas, o uso desse remédio é menos fantástico e requer mais discussões aprofundadas.

Com o poder de elevar a concentração a níveis altos e eliminar a fadiga por completo, a ritalina – também conhecida como metilfenidato – conquistou diversos adeptos entre empresários e estudantes, que vivem pressionados por provas, exames e trabalhos de faculdade. Suas vendas no Brasil triplicaram em cinco anos, atingindo mais de 1 milhão de caixas em 2006.

Você consumiria essas drogas?

Gustavo Smolinski, 17 anos, no terceiro ano do ensino médio:

"Eu nem sabia que existia essa parada. Se eu tivesse possibilidade financeira e se pudesse comprar em algum lugar de um jeito fácil, eu compraria. Se o acesso fosse difícil, no entanto, eu não faria questão”.

Aline de Quadros, 20 anos, no terceiro ano de Direito da UFPR:

"Sim, eu tomaria. Eu tomo aspirina sempre antes de fazer uma prova. Ela aumenta minha concentração e meu rendimento durante a prova, evitando que eu me distraia pensando na dor de cabeça. Isso, desde que se leve em consideração a excepcionalidade, porque sei que esses medicamentos, muito diferentes da aspirina, são fortes. Mas em pouca quantidade e apenas com essa idéia de aumentar a concentração, não vejo problema mesmo".

Vitor Dias, 18 anos, no terceiro ano do ensino médio:

"Eu não usaria. Faço terceirão ainda e não estou desesperado para passar no vestibular. Se eu não passasse e ficasse uns quatro ou cinco anos no cursinho, aí eu consideraria".

Bernard Lindner, 19 anos, no segundo ano de Engenharia da Produção Civil da UTFPR: "Eu não usaria. Mas, em último caso, vá saber".

A moda pegou

“A principio, a ritalina é um remédio de tarja-preta que deve ser consumido apenas por pessoas com déficit de atenção ou hiperatividade, já que atua como um estimulante do sistema nervoso central”, explica o médico Sérgio Antonio Antoniuk, professor do Departamento de Pediatria da UFPR e coordenador do Centro de Neuropediatria do Hospital de Clínicas. Mas a realidade é outra.

O uso das drogas psicoativas por indivíduos saudáveis está se tornando um evento corriqueiro. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Viagra. Originalmente destinado a homens com problemas de ereção e pessoas com problema de circulação, tornou-se rapidamente campeão de vendas porque milhões de pessoas decidiram experimentá-lo.

Na opinião de Antoniuk, não há razão para pessoas saudáveis tomarem essas drogas. “Existem bebidas, como o chimarrão e o café, que fazem o mesmo efeito”, afirma. “Então, para quê tomar esses remédios?”.

Embora o acesso a ritalina seja bastante controlado em todas as farmácias, ela pode ser facilmente adquirida pela internet a preços bem baixos (confira aqui, aqui e aqui). Enquanto as farmácias cobram em torno de R$ 170 reais por uma caixa, esses sites vendem por volta de R$ 60, sem exigir receita alguma, constituindo-se tráfico de drogas.

A revista científica Nature fez uma pesquisa informal com seus leitores (a maioria cientistas). Das 1.400 pessoas que responderam, 20% disseram que já haviam tomado ritalina ou algum betabloqueador (droga que reduz a ansiedade) com o intuito de estimular a memória ou melhorar a concentração.

Mas, juntamente com os benefícios, o consumo da ritalina trás consigo os temidos efeitos colaterais. Como insônia, tontura e depressão. Segundo Antoniuk, são possíveis até 45 efeitos colaterais diferentes. Porém, todos brandos e controláveis.

Doce para soldado

Também vem ganhando adeptos no mundo um estimulante comumente conhecido como modafinil, desenvolvido para tratar narcolepsia (distúrbio caracterizado por sonolência súbita e incontrolável). Dependendo da dose, mantém os indivíduos acordados por até três dias, aumenta a capacidade de raciocínio, dá energia, e sem causar dependência. Para voltar a dormir, só parar de tomar a pílula.

As Forças Armadas americanas foram pioneiras no uso alternativo do modafinil. Foram montados testes com pilotos de helicópteros e de bombardeiros. A tropa foi capaz de voar por 48 horas sem pregar os olhos, bombardear alvos no Afeganistão e voltar às bases sem cometer erros, afirma o jornal inglês The Independent.

Outra droga capaz de incrementar o funcionamento do cérebro é o donepezil. Ele é um dos remédios utilizados para reduzir a perda de memória característica do mal de Alzheimer. Um estudo publicado em 2002 na revista Neurology concluiu que pilotos que tomaram donepezil melhoraram seu desempenho. Eles fizeram manobras complicadas com mais precisão e reagiram a situações de emergência melhor que os demais pilotos da experiência, a quem foi dada uma dose de placebo (comprimidos sem droga nenhuma).

Cada uma dessas drogas mexe com algum dos processos químicos que regulam a atenção, a percepção, o aprendizado e a memória de longo e curto prazo. Segundo o cientista norte-americano Marcelo Wood, coordenador do Centro de Neurobiologia do Aprendizado e Memória da Universidade da Califórnia, em Irvine, Estados Unidos, produzir substâncias e melhorar os métodos de estudo são o futuro da pesquisa na área da memória.

A droga nossa de cada dia

Turbinar a mente não é algo novo. Há anos o ser humano testa as mais variadas drogas. Atualmente, as substâncias da moda são o Gingko biloba (uma erva de origem chinesa que supostamente melhora a circulação de sangue no cérebro e a transmissão de impulsos entre os neurônios), a nicotina, a cafeína e diversas anfetaminas.

Devido à diversidade de produtos que contém cafeína, presente em mais de 60 espécies de plantas do mundo, ela é, seguramente, a droga psicoativa mais popular no mundo, de acordo com a literatura científica. Uma xícara de café forte costuma produzir em poucos minutos, um aumento da acuidade mental e sensorial, além de elevar o nível de energia, tornando a pessoa mais alerta e proporcionando bem-estar.

A cafeína pode estar presente em muitas outras comidas e bebidas. Ela está em chás, chocolates, refrigerantes à base de cola e medicamentos do tipo analgésico. A literatura médica afirma que cerca de 80% da população geral faz uso dessa substância diariamente, embora seja muito difícil quantificar seu consumo.

O consumo de metilfenidato (ritalina) e de modafinil é proibido pela Agência Mundial Anti-Doping. Se os atletas usarem tais drogas, eles terão uma vantagem sobre os outros. Da mesma maneira, no caso dos estudantes, aventa-se uma questão: não deveriam começar a proibir a ingestão de tais substâncias em competições intelectuais, como concursos públicos ou vestibulares? “Mas como controlar?”, indaga Antoniuk. “Garanto que quem as toma sai na frente. Mas não há como ter controle sobre isso”.

A vez dos gênios – curiosidade

Abaixo, segundo informações reunidas pela revista Época, três dos pensadores mais brilhantes de nossa história e as substâncias usadas por eles.

HONORÉ DE BALZAC (1799-1850) - O café era usado pelo escritor francês para dedicar até 16 horas seguidas ao trabalho.

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867) – O poeta usava ópio, éter e haxixe para aliviar as dores da sífilis, doença que contraiu ainda jovem.

JEAN-PAUL SARTRE (1905-1980) - O filósofo francês fumava dois maços de cigarro por dia, quando não os trocava por charutos ou pelo cachimbo.

O Walter Reed Army Institute of Research fez uma pesquisa, sob a coordenação de Nancy Jo Wesensten - que trabalha com produtos farmacêuticos que possam melhorar o desempenho de soldados quando eles sofrem de insônia nos campos de batalha. Os pesquisadores queriam saber se o modafinil teria qualquer vantagem sobre a cafeína. O resultado surpreendeu: as duas drogas se comportam de forma muito similar. Assim, não há vantagem em usar o modafinil no lugar da cafeína. Ele não tem vantagem alguma frente a que muitas pessoas consomem todos os dias, mesmo sem saber.

Especialistas divergem

Há um exército de defensores dessas drogas. Acadêmicos renomados, como os neurologistas Michael Gazzaniga, da Universidade da Califórnia, e Martha J. Farah, da Universidade da Pensilvânia, publicaram um artigo na Nature em defesa do "uso responsável" de medicamentos para aumentar a concentração, assim como estímulos para que os alunos durmam melhor e pratiquem exercícios físicos.

Afinal, o que é inteligência?

Esta é outra questão que o uso desses remédios levanta. Vários usuários de Ritalina afirmam que seus efeitos estão no campo da concentração, na velocidade e disposição com que se entregam ao trabalho. Mas, se não houver idéias, o remédio apenas cria uma disposição estéril. Um caso emblemático é o do russo Solomon Shereshevskii. Conhecido na literatura como S., era capaz de guardar em questão de minutos longas fórmulas matemáticas e até poemas em línguas em que ele não dominava. Apesar disso, S. apresentava um Q.I. mediano e tinha dificuldades para se ajustar a funções triviais do dia-a-dia. Sua carreira em jornalismo, por exemplo, não deslanchou. Embora não precisasse de anotações por conseguir lembrar de cabeça as entrevistas que fazia, não conseguia distinguir o que era relevante do que era detalhe. Ele penava para entender conceitos abstratos e frases com sentido não-literal, como provérbios e piadas. Em algumas situações, ele queimava papéis contendo as informações memorizadas numa tentativa desesperada de esquecer. Em lugar de bênção, a memória se tornou um tormento.

Em reportagem sobre drogas para o cérebro, a revista The Economist defendeu seu uso: "Se os cientistas conseguirem desvendar os segredos do Universo com auxílio da química, tanto melhor. Se a química ajudar a aumentar o espectro da vida humana, os benefícios poderiam ser enormes". O pesquisador britânico John Harris, diretor do Instituto para Ciência, Ética e Inovação da Universidade de Manchester e editor-chefe do Journal of Medical Ethics, diz que é hora de abraçar o uso de drogas que aumentam o desempenho cognitivo, a favor da liberação do uso sem receita médica dessas substâncias.

No entanto, o filósofo Leon Kass, chefe do Conselho de Bioética escreveu recentemente: "Nestas áreas da vida humana, onde a excelência tem sido obtida pela disciplina e esforço, a conquista de resultados com uso de drogas, engenharia genética ou implantes parece ardilosa”. Certo ou errado, é fato que essas drogas estão circulando por aí. E sendo consumidas a todo o vapor.



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