Quando criança jogava bola junto com os primos. Aos 14 anos, entrou para uma escolinha de futebol, onde começou a se destacar e não parou mais. Formou-se em educação física, através de uma bolsa que ganhou jogando futsal, e hoje atua no time de futebol do Novo Mundo. O que pode parecer a trajetória de muitos meninos brasileiros, é a realidade de muitas garotas também. Essa é a história de Vantressa Afonso Ferreira no esporte.
Ao contrário da maioria dos garotos, a jovem de 24 anos não consegue viver apenas do futebol. Ela concilia os treinos do clube onde joga, o Novo Mundo, com a rotina de professora de educação física em uma escola de ensino fundamental da rede pública. “O futebol feminino no Paraná ainda encontra pelo caminho muitas portas fechadas. Falta apoio, estrutura e interesse de grandes clubes para investir. Alguém precisa comprar a nossa briga”, desabafa Vantressa.
Novo Mundo na Copa do Brasil
O Novo Mundo Futebol Clube foi o único representante de Curitiba na edição deste ano da Copa do Brasil de Futebol Feminino, que foi disputado do dia 24 de setembro até o dia 5 de dezembro. A equipe fez a melhor campanha na história da competição e chegou até as quartas de final.
O destaque do campeonato foi o Santos, que conta com um elenco de jogadoras da seleção brasileira, entre elas Marta, eleita a melhor do mundo. E justamente contra o peixe que o Novo Mundo ficou fora da disputa pelo título. Ironicamente, foi a partida mais importante para o clube paranaense. “O jogo contra o Santos ajudou a divulgar a existência de um futebol feminino de qualidade em Curitiba”, afirma Vantressa.
Mais de oito mil pessoas assistiram a Santos e Novo Mundo, no estádio Couto Pereira. Para Vantressa, isso serve para provar que não existe mais preconceito por parte das pessoas. “A visão do público em relação ao futebol feminino já mudou muito. A vinda de jogadoras como Marta e Cristiane para o Brasil só fizeram acelerar esse processo. Falta agora um interesse por parte dos dirigentes”.
O técnico do Novo Mundo, Fernando César Sfeir, aponta que um dos grandes problemas é a falta de patrocínio, que desencadeia uma série de dificuldades. “A comissão técnica trabalha de forma voluntária e as jogadoras, na maioria das vezes, ganham de 50 a 100 reais por partida. Ou seja, a maioria tem que trabalhar para poder jogar, o que faz com que elas treinem menos”. O Novo Mundo treina apenas uma vez por semana, e nem sempre com todas as jogadoras presentes, enquanto clubes grandes, como o Santos, treinam até dez vezes.
Novo Mundo X Federação Paranaense de Futebol
Outra grande dificuldade que o time de Curitiba passou neste ano foi o cancelamento do calendário das competições estaduais, o que fez com que a equipe disputasse apenas as seis partidas da Copa do Brasil. “Quando tem jogo, tem patrocínio. O problema é que a Federação Paranaense de Futebol não mantém um calendário de campeonatos definido”, relata Vantressa.
Além da jogadora, todos os dirigentes e integrantes da equipe técnica do Novo Mundo declaram-se insatisfeitos com as medidas da Federação Paranaense de Futebol, que cancelou o Campeonato Estadual deste ano.
O presidente do Novo Mundo, Moacir Ribas Czeck, acusa a Federação de omitir-se frente ao esporte. “Ela não tem pulso firme. Falta apenas boa vontade para incluir no calendário esportivo o futebol de campo feminino”.
De acordo com o presidente da Federação Paranaense de Futebol, Helio Pereira Cury, a entidade tem feito o que pode. “Fazemos a nossa parte. Temos trabalhado e investido para que no próximo ano possa ser realizado o campeonato estadual”. Cury diz que todos precisam ser realistas para administrar a situação do esporte e que a Federação não tem estrutura para bancar os todos os clubes.
Apesar de não ter certeza sobre a realização da competição, o presidente da Federação afirma acreditar no crescimento do esporte no Paraná. “A atuação do Novo Mundo na Copa do Brasil trouxe um clima novo para o cenário do futebol feminino e renovou as nossas esperanças”.
“O que desmotiva é ver que é possível e mesmo assim não conseguir chegar, devido à falta de uma estrutura adequada”, lamenta Vantressa.