Um recado no Orkut, uma conversa no Messenger. Aí está o cenário para a traição online, que pode começar com flertes na página de recados e acabar em um motel. Para Henrique*, ela é como qualquer outra traição. Ao ser traído pela namorada na internet, ele teve essa sensação. Apesar da experiência ruim, ele não se imagina fazendo isso alguém. “Não posso afirmar que não o faria. Acho que terminaria o relacionamento antes se estivesse insatisfeito”.
Com Fabiana* foi diferente. Ela namorou por dois anos um colega de escola. A relação esfriou e, na mesma época, voltou a conversar com um antigo professor. Começou no Messenger, e, tempo depois, eles se encontraram. Mas dúvidas surgiram. “Eu não sabia lidar com tudo aquilo: termino um namoro de tanto tempo para tentar algo novo? Conto ou não conto? E se alguém descobre?”, diz Fabiana. Terminado o namoro, ela e o ex-namorado traído ainda são amigos: “Ele nunca descobriu, pelo menos não que eu saiba”. Mesmo assim, a garota não considera a traição online uma verdadeira traição. “Se algo começa, já existia um problema”, acredita.
É traição?
Porém, há quem tenha opinião diferente da de Fabiana, como é o caso da coordenadora do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná, Lídia Weber,. “Existe até jurisprudência a respeito da traição pela internet. O importante é o significado”, afirma. “Se uma pessoa acessa sites com conteúdo erótico sem contato com alguém, pode ser igual a olhar uma revista. Mas se a pessoa engaja-se em alguma atividade romântica e/ou erótica com outra, o significado é muito diferente”. De fato, há casais que alegam “quase-adultério” para se divorciarem: caso não se prove o contato físico, mas um envolvimento amoroso – através de mensagens trocadas no Orkut ou no Messenger –, a pessoa que se sentiu traída pode usar isso como motivo de divórcio.
Mais além
Por que homens e mulheres traem? Para Lídia, dizer que apenas se trai quando a relação está ruim não é suficiente. “Trai-se por inúmeras razões: insatisfação com o parceiro, busca de emoções frescas, fuga do tédio, oportunidade, vingança da traição do outro, falta de compromisso do outro…”, elenca. Outra questão é como saber se alguém está traindo ou não. Ângela Carvalho, sexóloga, acredita que o primeiro indício é o desinteresse da pessoa pelo relacionamento. A médica afirma que, para evitar futuras traições, o amor entre o casal deve ser um constante aprendizado. “O amor requer um investimento contínuo das partes envolvidas. O diálogo continua sendo primordial em qualquer tipo de relação humana”, acredita. “Talvez por isso o relacionamento virtual seja tão atraente, pois nele há oportunidade de conhecimento, enquanto que nos relacionamentos ‘reais’ nem sempre estamos dispostos a ouvir com toda a atenção o que o outro tenta nos passar através de palavras, olhares e gestos”, completa Ângela.
*Os nomes dos entrevistados foram trocados por pseudônimos.
O que o levou a criar a comunidade?
A curiosidade por esse tema pouco debatido pela mídia, e também saber o que as pessoas acham da traição virtual – além de ser um chamativo para uma comunidade no Orkut.
Você acha que ela ajuda as pessoas que passaram por essa situação?
Sim. Com essa comunidade já recebi várias perguntas por e-mail, recados no Orkut, conversas instantâneas, mas muitos usuários preferem o anonimato para debater o assunto.
No Orkut, existem comunidades contra a traição na internet. Mas o site é também onde essa traição ocorre. O que você acha sobre isso?
Existem leis contra a pedofilia. Mas mesmo existindo a lei, é muito fácil encontrar casos desse tipo. Ou seja, onde ocorre não é a questão, e sim a razão.