Videogames jogados na Internet ou com modos de jogo on-line existem desde os anos 90, e as grandes empresas do ramo já incorporaram serviços on-line para os usuários dos consoles tradicionais. É o caso do Xbox Live e da Playstaion Network, portais criados pela Microsoft e pela Sony, respectivamente, para jogadores dos consoles Xbox 360 e Playstation 3. Os games em rede se difundiram até mesmo como forma de publicidade. O filme Salt, suspense de ação e espionagem estrelado por Angelina Jolie, ganhou o Day X Exists (O Dia X Existe, em tradução livre), um jogo on-line em que é possível participar de missões que desvendam uma parte da trama. A estratégia é aproximar o público do filme de forma ativa. O game estará disponível no site http://www.dayxexists.com/site/ e terá “episódios” novos lançados toda semana até a estreia do longa, marcada para 23 de julho nos Estados Unidos.
Em entrevista ao Comunicação On-line, o doutor em videogames pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e fundador do portal Gamecultura, Roger Tavares, comenta a experiência de jogar em rede, e como essa modalidade mexe com a percepção dos jogadores e com a lógica de produção dos games.
Comunicação On-line: Quais as particularidades dos jogos em rede em relação aos modelos tradicionais para console?
Roger Tavares: A principal diferença é que nos modelos para console você joga contra uma inteligência artificial. Uma vez na rede, você vai jogar com seres humanos. Jogando contra um computador, muitas vezes você detecta como o essa máquina se porta, você vê padrões. Com o ser humano é diferente, mais difícil, não enjoa tão rápido. O que acontece muitas vezes é que você pode acabar jogando com uma pessoa que não tem o seu nível de habilidade, e isso pode ser uma desvantagem, já que contra o computador você pode escolher o nível de dificuldade.
Comunicação: A que tipo de jogador essa modalidade mais exerce apelo?
Tavares: Antigamente, seriam os jogadores “hard core”, aqueles que têm uma rotina habitual de jogos. Hoje em dia, você tem games também para jogadores casuais, aqueles que não se dedicam muito, que jogam como passatempo. Hoje como todos têm rede em casa ficou mais fácil. Além disso, os jogos são mais simples, não exigem muito tempo para entendimento.
Comunicação: Quais os aspectos e os recursos mais atraentes?
Tavares: Depende muito do jogo. Há aqueles jogos do Facebook, por exemplo, em que é possível envolver outras pessoas no jogo sem que a iniciativa venha delas. Já em plataformas como o Playstation 3, as pessoas se reúnem. Há os usuários que se encontram na rede do console para bater papo, e muitas vezes não precisam nem jogar os mesmos games. Depende do que cada pessoa busca. Mas eu posso dizer que é muito mais emocionante jogar contra um ser humano.
Comunicação: Jogar em rede altera a percepção do usuário sobre a experiência com o videogame?
Tavares: Não tem como comparar os dois tipos de jogo. Tem muitos jogos bons e populares que ainda só e possível jogar contra inteligência artificial. Um bom exemplo é o GTA (Grand Theft Auto: série de jogos que unem elementos de aventura, luta, corrida e RPG. O jogador controla um protagonista em uma metrópole fictícia e que executa crimes e missões para subir na hierarquia do crime organizado).
Comunicação: Essas mudanças na realidade dos games estão sendo incorporadas pelas produtoras? Como?
Tavares: Hoje em dia é padronizado, os produtores já pensam o título para ser jogado em rede. É claro que existem exceções, mas na maioria das vezes essa modalidade já é pensada previamente.
Comunicação: Os jogos em rede podem substituir a modalidade off-line de console no futuro?
Tavares: São coisas diferentes. Há títulos em que é possível jogar com quase 300 jogadores on-line ao mesmo tempo. Mas normalmente se joga com uma média de 10, 15 por vez. Eu prefiro o modo single player, pois quando você joga sozinho você pode fazer o seu tempo, jogar a hora que quiser, com quem quiser. Meus amigos jogam sempre com outras pessoas, já eu, quando jogo on-line, prefiro sempre com o mesmo grupo. Mas não creio que uma forma vai substituir a outra. Acho que elas vão continuar coexistindo, como acontece hoje.
Comunicação: Quais os rumos dos jogos em rede para o futuro? Que melhorias podem ser feitas?
Tavares: É preciso melhorar a capacidade gráfica. O game feito para ser jogado totalmente on-line tem o visual e a mecânica mais simples. Outro avanço que poderia ocorrer é uma distinção melhor de quem está jogando, no sentido de separar os jogadores por nível de habilidade. O computador não deveria só sortear, como ocorre hoje, mas também colocar os usuários em um grupo com o mesmo nível. Deveriam criar um sistema mais regulado, que separasse os jogadores por grau de habilidade.
Você também pode ver aqui a segunda parte da entrevista com Roger Tavares, falando sobre tecnologia 3D nos videogames.