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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Esportes | Publicada em 24/05/10 às 10h58

Ídolo dentro e fora dos gramados, Dr. Sócrates reafirma a sua face politizada

Jogador fez história com a camisa verde e amarela e liderou o movimento democrático do Corinthians
Reportagem Helen Anacleto
Reprodução - Folha Uol
O atacante liderou o movimento da Democracia Corinthiana e jogou no que é considerada a melhor seleção brasileira desde 1970
O atacante liderou o movimento da Democracia Corinthiana e jogou no que é considerada a melhor seleção brasileira desde 1970

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é um dos jogadores mais importantes que o país teve a sorte de ver em campo. Nos 63 jogos que disputou pela seleção, balançou as redes 25 vezes. Já na estreia contra o Paraguai, em maio de 79, participou da goleada brasileira por 6 x 0 em cima dos vizinhos. Com duas Copas do Mundo no currículo (1982 e 1986), Magrão, como ficou conhecido durante sua longa passagem pelo Corinthians, fez do inconfundível toque de calcanhar sua marca principal.

Não bastasse a extrema habilidade, o atacante também era médico e conhecido como o jogador mais politizado do meio esportivo: um líder nato, dentro e fora de campo. É dele o título de principal personagem da Democracia Corinthiana, movimento realizado em pleno regime militar.

Dr. Sócrates esteve em Curitiba para falar sobre a relação entre futebol e política em um evento organizado pelo Sesc-PR. O Co:::unicação aproveitou a oportunidade para conversar com o ícone do futebol brasileiro.

Comunicação: Como foi pra você integrar a Democracia Corinthiana?

Sócrates: O Corinthians tinha uma postura democrática, educativa. Uma postura absolutamente compatível com a expectativa do povo brasileiro. Na seleção isso não acontecia. A seleção tinha jogo, beleza, arte, que também tem a ver com a nossa cultura, mas não com questão política.

Comunicação: Essa luta foi convertida em eleições diretas, mas como lidar com o fato de que o primeiro presidente eleito nesse processo é considerado como o maior ladrão da história recente do país?

Sócrates: Olha, eu não sei se foi o maior ladrão, não. Ninguém sabe quem foi o maior ou menor. Isso não foi medido, não tem balanço pra isso. O problema é o seguinte: não adianta você ter direito ao voto. Tem que ter democracia social, também, e nós estamos muito distantes disso.

Comunicação: Você que agora trabalha com futebol fora dos campos, consegue ver a Copa do Mundo do mesmo jeito?

Sócrates: Hoje é muito diferente. Agora a visão é mais crítica do que sentimental, eu trabalho, escrevo e penso em cima disso. Não dá pra ser torcedor. Quem tem visão crítica não pode ter visão apaixonada. Ou uma coisa ou outra.

Comunicação: Aquele pênalti perdido nas quartas-de-final contra a França foi um dos momentos mais difíceis da sua carreira?

Sócrates: Nada disso! Duro foi ter perdido a mulher que eu amava (risos). Isso é questão de trabalho e isso não vale nada. Entenda o seguinte e transfira pra quem for ver isso: é muito mais importante uma lágrima, que um saco de dinheiro. É muito mais importante um carinho, um abraço do que fazer um gol na Copa do Mundo. É muito mais importante um amor do que ser Campeão do Mundo.

Comunicação: Você acha que a cobertura da mídia com relação aos times que não são do eixo Rio-São Paulo é diferenciada ou isso é lenda?

Sócrates: Não, na verdade, é falta de acesso, talvez. A comunicação melhorou muito, mas ou você assiste um jogo ou assiste outro. Existe alguns de maior interesse de acordo com o veículo que você trabalha e outros de menor interesse. Eu escrevo num jornal que fundamentalmente circula em São Paulo, então eu vou escrever sobre essa região. É o que tá no contrato: se você me contratar eu vou escrever sobre o Paraná e escrever sobre os times daqui. É isso.

Comunicação: Falando como torcedor, a chuva atrapalhou muito o Corinthians na partida contra o Flamengo pela Libertadores?

Sócrates: A chuva no meio do jogo? Ah, aquilo lá não devia ter existido, não. Aquilo foi uma enganação contra o consumidor que foi lá pra assistir um jogo de futebol e viu um jogo de pólo aquático.

Comunicação: Algum jogador da atualidade te chama a atenção pela garra ou pela vontade?

Sócrates: Todos têm a mesma postura. A questão é que o jogador fica muito pouco tempo na casa de alguém. Não dá pra criar paixão, amor se você fica um dia na casa de alguém. Você tem que ficar anos. Hoje ninguém para em lugar nenhum, é uma rotatividade muito grande. Não dá pra ter o mesmo sentimento de quem ficou dez anos num time, como há 50 anos. Então a forma de convivência é diferente.

Comunicação: Mas isso acontece com mais frequência devido à ascensão dos empresários da bola, não é? Como amenizar esse assédio?

Sócrates: Nós temos é que dar educação e conhecimento pra esse povo. Senão, eles vão ser manipulados o resto da vida, não só por empresários, mas por treinadores, dirigentes, pelo filho. Às vezes o filho de três anos é mais adulto do que o cara de 30 que joga no seu time, isso tá claro. Todos os brasileiros têm que ser educados, isso é um dever do Estado.

Comunicação: O futebol hoje é mais comercial do que há 50 anos?

Sócrates: A questão não é comercial é de afinidade, mesmo. É você criar uma relação afetiva, só isso. Se eu conhecer uma pessoa hoje, como é que eu vou gostar dela? Agora, daqui a dez anos, eu posso gostar ou não gostar. Nos conhecemos bem e a relação pode ou não ser saudável.

Comunicação: Você começou no Botafogo de Ribeirão Preto e atingiu o ápice no Corinthians. Dá pra escolher qual dos dois é mais importante pra você?

Sócrates: Eu me apaixono por todo mundo, tudo isso depende da sensibilidade do momento. Eu nasci dentro do Botafogo, praticamente. Era o time que eu torcia quando eu era garoto e comecei a jogar. Na verdade, o futebol apareceu na minha vida como um acidente. Mas eu jogaria até, sei lá, mesmo que não fosse profissional. Mas a minha marca é corinthiana. Eu tenho seis filhos, quatro com a primeira mulher. Então, a marca maior é da primeira mulher. Isso não quer dizer que as outras sejam menos amadas.

Comunicação: Se você jogasse uma partida hoje e fizesse três gols, que música você ia pedir na TV?

Sócrates: Eu jamais jogaria uma partida hoje e jamais faria três gols (risos)! Mas a música eu poderia pedir: Iolanda, do Pablo Milanes.

Quer saber mais sobre a relação entre futebol e política?



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