Alicerce artístico da simetria humana ideal, o Homem Vitruviano de Da Vinci em muito se assemelha ao filósofo francês Luc Ferry. Ambos têm cabeleiras volumosas, são magros, altos e símbolos do Humanismo. Dificilmente as definições de filósofo, político e autor de best sellers podem se aplicar a uma só pessoa. Mas esse é o caso de Ferry. Com o livro Aprender a Viver, ele foi agraciado com o Aujourd’hui 2006, um dos mais conceituados prêmios de não-ficção contemporânea da França. Recentemente, ele esteve em Curitiba para ministrar uma palestra na Universidade Positivo e falou sobre política, educação e relações culturais em entrevista coletiva.
Ministro da Educação de 2002 a 2004 no governo do conservador primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, Ferry foi a principal mente por trás da proibição do uso de símbolos religiosos em escolas públicas francesas. Atualmente, embora não exerça um cargo político oficial, é de amplo conhecimento que o presidente Nicolas Sarkozy leva em consideração muitas das suas opiniões.
Ferry é um ferrenho defensor do Humanismo Secular, visão de mundo que se contrapõe à religião, por conta do compromisso com o uso da razão crítica, na busca de respostas para as questões que mais intrigam a humanidade, como o amor, a morte e a procura da felicidade. Para Ferry, vivemos hoje a “Revolução do Amor”, onde os relacionamentos entre as pessoas se tornaram mais importantes que as religiões e as ideologias. Embora frequentemente rotulado como conservador e racista, quando suas palavras são cuidadosamente digeridas, percebe-se que Ferry é antes de mais nada um apaixonado entusiasta da razão.
Jornal Comunicação: Qual motivo levou o senhor a tomar a decisão de banir o uso de símbolos religiosos nas escolas públicas?
Luc Ferry: A resposta é muito particular ao caso francês. Na França, nós temos a terceira maior comunidade judaica do mundo, depois só dos Estados Unidos e de Israel. Essa é de longe a comunidade mais importante da Europa. Ao mesmo tempo, temos também a comunidade islâmica mais numerosa da Europa, com cinco milhões e meio de pessoas. O que aconteceu na França é que, após a segunda Intifada, em 2001, nós tivemos um aumento de 200% de atos antissemitas ou racistas, principalmente nas escolas. Então, eu, como ministro, tomei a decisão não de banir os sinais religiosos, mas sim os sinais militantes. Ainda é possível portar uma pequena cruz ou uma estrela de Davi, mas os sinais ostensivos, como a kipá, o véu e as grandes cruzes foram proibidos. Os adultos podem ostentar os signos religiosos que quiserem, mas isso não deve ser “reproduzido” entre as crianças. O que eu quis evitar foi as classes se organizarem em comunidades religiosas. Havia crianças que traziam cruzes grandes para as aulas e me diziam: “As jovens muçulmanas vêm com o véu e os judeus vêm com a Kipá. Por que eu não posso mostrar a minha religião também?”. Eu acredito que os adultos têm o dever de evitar que as crianças lutem nas escolas. Meninos descendentes da região do Magreb, que são franceses, pensavam que eram Palestinos. Os meninos judeus pensavam que eram Israelenses. Bom, meninos nascidos na França são meninos franceses! Não podíamos deixar as crianças reproduzirem o conflito do Oriente Médio. Desde que essa lei foi votada, não houve mais problemas desse tipo na França. Acho que eu fiz bem.
Comunicação: O caso dos véus é uma questão religiosa, mas também cultural. Nós, no ocidente, usamos alianças, que são também símbolos religiosos. Por que as alunas muçulmanas não podem usar véu, mas os professores, por exemplo, poder usar alianças, sendo que estas também têm origem num contexto religioso?
Ferry: Quando eu era criança, não havia véu. Eu nunca havia visto uma mulher usando véu na França em toda a minha vida. Então, por que esses véus começaram a aparecer na França e na Europa em geral? O véu não é um símbolo religioso, porque não é uma obrigação na religião muçulmana. Há cinco obrigações no islamismo, mas nenhuma delas referente ao véu. Então, por que este retorno ao uso do véu? É porque houve um movimento radical islâmico muito forte, em todo o mundo, notadamente a partir do 11 de Setembro. Com isso, o uso do véu passou a ser um sinal político, e não cultural. Ele adquiriu, nesse contexto específico, um sentido militante. Lembro que houve um movimento na França, de mulheres descendentes de árabes, chamado “Nem puta nem submissa”. Uma dessas mulheres é Fadela Amara. Ela é de esquerda e compõe o atual governo justamente para que a democracia e a república não sejam derrotadas pelo fundamentalismo. Por isso, não aceite isso. Adultos podem usar o que quiserem, mas não crianças.
Comunicação: Qual a sua opinião sobre o acordo nuclear assinado entre o Brasil, a Turquia e o Irã?
Ferry: Na minha opinião, o principal inimigo do Ocidente é o presidente iraniano. O fundamentalismo é equivalente ao nazismo dos anos 1930. A ameaça é tão grande quanto. Tudo que puder contribuir para que o Irã entre na lógica normal de relação entre os países é formidável. Para isso, nós precisamos de intermediários. E o presidente Lula é a pessoa perfeita para isso. Ele não é aquele estereótipo de líder europeu. Ele é do Partido dos Trabalhadores e, até onde eu sei, ele abandonou o pensamento clássico e as reivindicações da esquerda agora que está no poder. Não é verdade? Quando se está no poder, nossos líderes preferem pensar que é melhor deixar Trotsky na história.
Comunicação: O senhor é um defensor da filosofia laica, não-religiosa. O quê o senhor acha da decisão do governo brasileiro de instituir o ensino religioso ecumênico (voltado para todas as religiões, e não uma em específico) nas escolas públicas?
Ferry: Pessoalmente, eu não acredito em Deus. Isso não tem importância, mas eu digo isso pra que não haja nenhum mal entendido. Contudo, quando eu fui ministro, decidi que deveria ser ensinada a história das religiões, e que seria o professor de história que ensinaria o que eu chamo de “fato religioso”. No programa, notadamente para os alunos de entre 16 e 17 anos, nós falaríamos do islamismo, cristianismo, judaísmo e até mesmo do budismo. Isso porque, no plano cultural, a história das religiões é vital. Você não vai compreender nada das grandes obras de arte clássicas se você não tiver um mínimo de cultura religiosa. Então, sob o ponto de vista simplesmente da cultura, é um absurdo suprimir qualquer ensino da história das religiões. Claro que não seriam aulas militantes, a favor de uma religião e contra outras. Eu penso que nós podemos ser laicos e, ao mesmo tempo, respeitar as religiões. O problema é que, na França, a república se constituiu inicialmente contra a religião. No fundo, o padre era o inimigo do professor. Mas isso acabou. Agora podemos ensiná-las sem ser fanaticamente a favor ou contra. É um elemento cultural indispensável.
Comunicação: O senhor defende a ideia de que a família é a instituição mais valorizada atualmente pela sociedade. Não seria o contrário? A família não passa hoje por um processo de degeneração?
Ferry: Eu vou contradizê-lo. Mas gentilmente. Não há degradação da família. Isso é uma ilusão total. Nós achamos que a família vai mal no Ocidente porque há muitos divórcios. Mas, paradoxalmente, o divórcio não é de maneira alguma um sinal de que a família vai mal. O divórcio significa que a família é fundada sobre algo muito novo na escala da história, que é o casamento por amor. Na Idade Média, e ainda hoje, em países da África, da Índia e do mundo árabe, jamais se casava por amor. Na realidade, ninguém se casava, as pessoas “eram casadas”. No casamento antigo, tradicional, que era organizado pelas famílias, as mulheres não tinham nada a dizer. Elas eram casadas por suas comunidades, por suas famílias. O casamento por amor não existia. O que vai caracterizar a democracia moderna é os jovens decidindo livremente quando e com quem eles se casam. O casamento deixa de ser uma imposição e passa a ser por e pelo amor. Quando um casal não se ama mais, ele simplesmente se separa. E isso não quer dizer que a família vai mal. A invenção do divórcio e a invenção do casamento por amor são contemporâneas em todas as civilizações. Hoje em dia, sobretudo na direita política, se lamenta o tempo em que ninguém se divorciava. É verdade que as pessoas não se divorciavam, mas, em contrapartida, as mulheres sacrificavam muito rapidamente a sua vida privada e profissional por um homem que muitas vezes as traía. A família tradicional é inseparável de uma outra instituição: o bordel. Por exemplo, na França, os Presidentes da República, sem exceção, até o Nicolas Sarkozy, nunca se divorciaram. Eles pensavam que seria o fim da carreira deles. Contudo, surpreendentemente, no dia do funeral de um deles, era necessário abrir todas as portas da igreja para que entrassem as amantes e os filhos nascidos fora do casamento. Nicolas Sarkozy foi o primeiro presidente francês a se divorciar, o primeiro a se casar por amor, como qualquer outro cidadão francês. Os jovens, quando se casam, pensam que o casamento é para a vida toda. Isso não é verdade. Claro que podemos sentir nostalgia pelo período que não havia divórcios. Mas então teríamos de aceitar que nossos pais fossem casados à força. Eu não conheço nenhuma mulher que queira retornar a isso. Quando dizemos que a família está se degenerando, estamos cometendo um grande erro.
Comunicação: Gostaria que o senhor explicasse sua tese sobre como a família substituiu a religião como entidade sagrada e sobre o propósito da vida moderna.
Ferry: Qual o sentido de nossas vidas? Olhando para a história da humanidade, essas razões estiveram sempre ligadas ao sagrado. E, etimologicamente falando, sagrado é algo pelo qual você sacrifica a sua vida. Na história ocidental, especificamente, nossos ancestrais morreram por três grandes motivos, três grandes figuras do sagrado. As pessoas morreram por deus, nos conflitos religiosos. As pessoas morreram pela pátria, nos conflitos nacionalistas que desembocaram nas guerras mundiais. E as pessoas morreram pelas revoluções. Só o maoísmo, fez mais de 60 milhões de mortos. Hoje, todas essas figuras sagradas foram liquidadas. Ninguém estaria disposto a arriscar a vida nem por deus, nem pela pátria e nem por qualquer revolução. Contudo, todos nós estaríamos dispostos a arriscar as nossas vidas para salvar a vida daqueles que amamos. Essa é a revolução que estamos vivendo: a Revolução do Amor. É a emergência de um novo princípio de vida. Só o amor faz sentido às nossas vidas. Quando eu era criança, no tempo do general de Gaulle, para ele, a França era mil vezes mais importante que a família e o amor. Para os meus amigos maoístas da década de 1960, a revolução era dez mil vezes mais importante que a vida privada. Che Guevara era dez mil vezes mais importante que Brigitte Bardot.
Comunicação: E a política, ela também está se enveredando por um novo caminho?
Ferry: A política nunca foi tão vital. Mas ela não serve mais à glória dos impérios ou das colônias. O que alimenta a política hoje é uma espécie de suporte para nossas crianças. E a ecologia é o primeiro grande movimento político que entendeu isso. A questão política fundamental hoje é: qual é o mundo que queremos deixar para nossos filhos? Isso envolve a ecologia, mas não apenas isso. É também sobre o choque de civilizações. Por isso, eu fui favorável à entrada da Turquia na União Europeia, porque eu acredito que a relação entre o Ocidente e o mundo árabe é o problema número um. E por meio da guerra nós não resolveremos nossos problemas. A política moderna está passando por uma transformação radical. A política agora serve ao povo. E essa é uma revolução como nenhuma outra em 2.000 anos. Max Weber, o grande sociólogo, dizia que, para entender melhor os valores tradicionais do sagrado, é necessário prestar atenção no seguinte exemplo: o código de honra de um capitão de um navio. Por séculos, se um navio naufragasse, o comandante deveria afundar com o navio, mesmo se a tripulação já tivesse sido salva. Pela honra dele, o capitão afundaria com o navio. Metaforicamente, esse é um símbolo. No atual Ocidente, ninguém morreria por um casco de um navio. Mas, com certeza, morreriam pelas pessoas dentro dele. E esse é um progresso formidável. Eu tenho amigos de direita que lamentam pelo tempo em que as pessoas morriam pela nação. Eu tenho amigos de esquerda que lamentam pelos tempos em que as pessoas morriam pela revolução. Ah, meu amigo, eu não tenho nostalgia nenhuma com relação à minha nação ou à revolução. Eu sinceramente acho que a eliminação dessas duas baboseiras é a melhor boa-nova do milênio. Champagne!