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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 12/06/10 às 13h25

Solteiros sim, mas não por opção

Exigências de escolha e falta de compromisso deixam cada vez mais pessoas - independente da idade - sem parceiros
Reportagem Débora Bressan Mühlbeier
Edição Marcela Varasquim
Reynaldo Reis
Movimento dos sem namorados: uma manifestação popular pela falta de bons partidos no mercado
Movimento dos sem namorados: uma manifestação popular pela falta de bons partidos no mercado
Guilherme Bessa
"Cansei de ser sozinho" é a frase que os manifestantes mais clamam

Ter ou não ter namorado é sim uma questão. Para alguns, indispensável para conseguir viver bem. Para outros, não chega a ser imprescindível. De qualquer maneira, a conquista de um parceiro continua a levar o ser humano a ápices de emoção e decepção – às vezes, na mesma velocidade.

O estudante universitário Gabriel*, de 19 anos, é homossexual e já teve vários relacionamentos, mas raras vezes durou mais do que um mês. O estudante admite que, em várias vezes, ele mesmo terminou o relacionamento depois de perceber alguns defeitos no parceiro. “Talvez eu seja muito exigente. Mas é difícil encontrar alguém bom pra mim, que não seja qualquer um”.

E isso não acontece só com Gabriel. O psicólogo Flávio Pereira explica que as exigências cresceram com o tempo. “Para se ter ideia, mulheres se cadastravam em agências de casamento há dez anos descrevendo a si mesmas como boas donas de casa. Hoje, as qualidades ressaltadas em seus perfis tem mais a ver com o trabalho, e as exigências são cheias de detalhes”. E a transformação atingiu também os homens, que não tem mais a seu favor, por exemplo, o papel exclusivo de mantenedor do lar.

“Existe sempre a procura por um par ideal. Isso é ilusório. Não existe um príncipe encantado", completa a psicóloga Débora Trindade Lanna. Quem imagina relacionamentos perfeitos já tem dificuldade de começar um namoro. Manter, então, é um sacrifício. Gabriel que o diga. “Acho que basta você ter uma boa aparência e ser agradável para chamar a atenção de alguém em um primeiro momento. O problema, pelo menos pra mim, é manter mesmo o relacionamento”, afirma o estudante.

A dificuldade da manutenção do relacionamento é problema mais presente na vida dos jovens. O casal Flora e Altair de Souza, por exemplo, de 51 e 49 anos, está junto há 22 anos. Quando se conheceram, Altair usou uma abordagem clichê: “Você vem sempre aqui?” – mas funcionou, conseguiu um telefone. Apesar de ter confundindo os números e acabar saindo com uma amiga de Flora, ele resolveu o mal entendido e, quatro meses depois, estava namorando.

Flora não acha que os tempos mudaram tanto assim, pois continua difícil achar a pessoa certa com quem conviver. Já Altair acredita que ficou mais fácil conhecer pessoas, mas os relacionamentos ficaram mais superficiais.

O estudante Luís Henrique Bogado de Carvalho, de 20 anos, acredita que antes o romance tinha uma beleza diferente. “Naquela época, parece que a tentativa era manter o coração batendo forte. Hoje, o importante é ficar com o maior número de pessoas possível”.

Embora já esteja na terceira idade, o pequeno empresário Theodorico Nascimento concorda com o estudante. Acostumado a frequentar bailes próprios para sua faixa etária, ele vê muita dificuldade para encontrar uma namorada. “Mulher da noite não presta, não dá pra namorar”, garante.

O segredo do namoro perfeito

Que a dificuldade de achar um par existe, é fato. Mas estar com alguém não é tudo que se precisa para ser feliz. Muitas vezes até pode ser sinônimo de muito sofrimento.

A solução pode estar em uma frase curta que está até na Bíblia: “amar a si mesmo”. A psicóloga Débora enfatiza que o melhor tratamento para decepções amorosas é aprender a se gostar. Sair sozinho e se divertir com amigos, não idealizar demais.

Quando essa independência de ficar bem por si só for alcançada, é sinal de que já dá para tentar namorar de novo. Com certeza, vai ser mais fácil manter o relacionamento, sem tantas cobranças e com maior respeito pela própria individualidade e também pela do outro. Isso porque colocar toda a responsabilidade da sua felicidade nas mãos de outra pessoa é o mesmo que entregar um fardo impossível de carregar.

Namoro virtual

Na opinião do casal Souza, é muito arriscado escolher alguém pela internet. “Já é difícil achar alguém no mundo real, imagine no virtual”, diz Flora. “Até que ponto você se vincula a algo virtual?”, também questiona Débora.

Mas o psicólogo Pereira não vê problema em utilizar esse meio para começar um relacionamento. “As pessoas tem a capacidade de desenvolver estratégias para não serem enganadas”.

O estudante Luís Carvalho já viveu dois relacionamentos sérios que começaram pela internet. O último, que durou nove meses, começou às vésperas do dia dos namorados, quando ele resolveu confessar que queria mais do que amizade. O detalhe era a distância de 600 quilômetros que o separava da namorada. “O primeiro encontro foi depois de uma viagem de oito horas. Eu com cara de quem dormiu no ônibus e ela com cara de quem não dormiu de ansiedade”, conta.

Eram 29 dias por mês de namoro à distância e só umas 24 horas ao vivo. No terceiro mês, as dificuldades ficaram perceptíveis. Não dava para se comunicar da mesma forma ou simplesmente abraçar o outro nas horas difíceis – o contato se limitava a uma conexão. As discussões foram cada vez mais frequentes, sempre por causa da insegurança que existe nesse tipo de relacionamento. Até que chegou o fim.

Depois da experiência, Luís pretende pensar duas vezes antes de começar um relacionamento pela internet com alguém de outra cidade – mas admite que pode ser presa de suas próprias emoções.

Um protesto contra a solteirice

No Brasil são mais de 74 milhões de solteiros, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Destes, alguns milhares foram às ruas protestar. Nos dias 29 de maio, em São Paulo, e 30 de maio, no Rio de Janeiro, a multidão levantou cartazes, dançou ao som de canções de amor e mostrou ao país que tem gente boa disponível no mercado.

“É o segundo ano do Movimento dos Sem Namorados. É uma forma bem humorada de lidar com a procura pela cara-metade”, explica Clarissa Assumpção, responsável pela organização da passeata. Ela conta que sempre saem casais desses encontros – no ano passado, foram contados 53.

O movimento também é uma iniciativa de um site de namoros e relacionamentos. Clarissa acredita no futuro dos relacionamentos pela internet. “A nova geração já nasceu online, está super habituada às mensagens instantâneas. O número de relacionamentos pela internet têm tudo para crescer com o tempo”.

* À pedido do entrevistado, o sobrenome foi ocultado para preservar sua identidade.

Para quem não quer passar o Dia dos Namorados sozinho

Como a matéria mostrou, arranjar um companheiro muitas vezes é um problema. Mas para facilitar esta missão, o Jornal Comunicação prestigia o leitor com uma lista de pessoas solteiras, que espontaneamente cederam seus dados na tentativa de sair da solidão. Acesse a lista aqui. É só conferir e cair para o abraço!



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