Para alguns jovens na internet, ficar sem comer e emagrecer radicalmente não são atitudes encaradas puramente como transtornos. Com consciência do que podem passar pela falta de nutrientes, optam pela ‘Ana’ ou ‘Mia’ (em referência à Anorexia e Bulimia, respectivamente) para evitar o aumento de peso. Essas pessoas participam de uma espécie de movimento chamado No Food. Usando a sigla NF, participam de comunidades e blogs que reúnem pessoas em busca do emagrecimento.
Diversos jovens ficam sem comer durante horas, dias e até uma semana, sobrevivendo somente com água e outros líquidos. “Já tive cansaço, tontura, até desmaio. A maioria das meninas encara a fraqueza do corpo como força do espírito, força de vontade, controle sobre o próprio corpo. Já eu acho que é hora de comer um arroz com feijão”, é o que conta Alice*, jovem de 23 anos e que há dez é adepta do No Food e do Low Food (LF, que significa comer pouco), sobre as reações que seu corpo já sofreu em período de alguns dias sem se alimentar.
Ficar sem comer é, para ela, uma opção de conseguir perder peso, e ser magra é um estilo de vida. “É questão simplesmente de não gostar do ato de comer. Da ideia que faz ter comida entrando na sua boca e indo pro estômago. Comer mais vezes durante o dia, mesmo que pouco, soa assustador”, afirma.
Outra jovem adepta é Cassie*. Por ser sentir gorda e insatisfeita com o corpo, sempre praticou jejuns para perder peso. Antes de começar seus regimes de restrição alimentar, chegou aos 100kg. Hoje com 64kg pretende emagrecer mais e conseguir chegar aos 55. “Eu tenho isso como estilo de vida. Para mim, já é hábito fazer NF todas as segundas-feiras ou após alguma 'farra de comida'. Faço isso para me sentir melhor e mais leve, pois quando como algo fora da minha alimentação normal, é como se meu estômago e cabeça fossem explodir”.
Ajuda virtual
O No Food e o Low Food são dois exemplos de como a internet facilita a busca pelo emagrecimento. Através de perfis anônimos no Orkut, seguidores dessa manifestação participam das comunidades em busca de apoio que não encontram nos círculos sociais fora da web. Trocam experiências, ideias, traçam objetivos e obtém apoio para continuar horas sem comer. Nos tópicos, comentam que vão começar uma ‘dieta’ e ficar sem se alimentar até quando aguentarem, se unem e determinam regras: nada de comida, apenas água e chá.
A nutricionista Rosane Pilot Pessa Ribeiro, especialista em transtornos alimentares da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, afirma que essa é uma forma de substituir as amizades que faltam no cotidiano para que elas não fiquem sozinhas nessas escolhas. “Como elas tendem a se isolar, os amigos precisam ser substituídos. Por isso tentam se juntar com pessoas que concordam com seus hábitos”.
“Alguns amigos sabem apenas sobre o LF e ouço algumas críticas. Só as amigas anas e mia apoiam”, conta Alice sobre seus relacionamentos com amigos que conhecem em parte sua situação. As amigas ‘anas’ e ‘mias’ são as encontradas nos sites de relacionamento e que também seguem a mesma corrente de pensamento.
Quem também passa por situação semelhante é Lori*. Seus pais e colegas de trabalho conhecem um pouco de sua situação e a criticam por comer pouco ou nada durante o dia. A jovem não se importa com as críticas feitas pelos amigos, mas se sensibiliza quando os pais pedem para ela se alimentar. “Meu pai me obriga a comer de algum jeito. Já disse que ia me surrar, que eu teria que passar a tarde trancada no quarto, nada que fizesse eu comer. Mas vejo minha mãe e meus familiares tristes então engulo alguma coisa”, conta.
Efeitos da restrição alimentar
Atitudes encaradas como estilo ou como obsessão pela magreza excessiva, o No Food e o Low Food são praticados por pessoas que têm visão distorcida do corpo. “Isso faz parte de um quadro psiquiátrico de restrição alimentar conhecido como anorexia nervosa. A pessoa possui um medo intenso de engordar e encontra nisso o caminho para perder peso”, explica a nutricionista.
Lori faz os jejuns há quatro anos, mas chegou ao estado de restrição de alimentos com o tempo. “Comecei com dietas e aos poucos fiquei neurótica com calorias. Depois que já estava ‘praticando’ é que pesquisei sobre o assunto. Assisti reportagens de pessoas que diziam não comer, ‘viver de prana’, e enfim cheguei à anorexia”. Quando fica por muito tempo sem comer, além de fazer exercícios físicos, consegue emagrecer até 10kg em cinco dias. Porém, depois desse período sem se alimentar, exagera na comida. “Meu peso varia muito. Acho que a compulsão que tenho depois dos dias de No Food conseguem repor todos os nutrientes que perdi”, avalia.
Pela mesma situação passou Cassie, com até oito dias sem comer. Ao perceber que engordava quando voltava a comer depois de tantos dias, diminuiu os períodos de No Food e hoje permanece no máximo por dois dias sem se alimentar. “Não fico mais por longos períodos sem comer, mas também não costumo comer várias vezes ao dia, pois meu estômago não aguenta”, afirma.
A falta de alimentos pode causar sérias consequências para o organismo, desde a tão esperada perda de peso até outras mais graves, como queda de cabelo, desnutrição, fraqueza cardíaca, hipotermia e alterações hormonais. “Essas atitudes levam o corpo a diminuir a atividade metabólica para evitar o estado de inanição”, explica Rosane. A nutricionista ainda fala dos efeitos psicológicos que as pessoas podem sofrer em decorrência da anorexia e bulimia. “Eles se isolam socialmente, não têm amigos e param de fazer contato social, o que pode levar à depressão”, completa.
Mesmo com as diversas consequências, Lori não se importa e quer continuar com sua dieta de restrição alimentar. “Não vou mudar minha tática, sei que um dia passarei do 6º dia, e do 7º e do 8º dias com No Food e tudo ficará bem”.
*Os entrevistados preferiram não revelar seus nomes verdadeiros para preservar a identidade.