Qual é a função do esporte? Manter a saúde? Superar limites? Unificar os povos? E se além disso, a prática esportiva tivesse como função mais importante ajudar o próximo? Parece promessa de político em ano eleitoral, mas não é. Bons exemplos de ajuda a quem precisa através do esporte são dados diariamente por pessoas que não recebem nada em troca.
O presidente da Federação Paraense de Canoagem, Evaldo Malato, é uma dessas pessoas. Foi ele quem teve a idéia e coordenou uma expedição de canoagem pelo rios do norte do país. Durante 27 dias entre os meses de abril e maio desse ano, os 16 viajantes percorreram 2.500 km entre as cidades de Manaus-AM e Santarém-PA. A viagem teve objetivos esportivos, culturais, sociais e turísticos.
A idéia surgiu a partir de um momento muito triste na vida de Malato. “Em 2008 eu estava abatido com a morte do meu irmão, querendo desaparecer. Por isso programei essa expedição, com objetivos unicamente esportivos e de aventura”, conta.
Retribuição
Porém, na primeira viagem um fator inesperado chamou a atenção de todos e mudou os rumos das expedições seguintes: o carinho e a hospitalidade do povo ribeirinho. Em 2009, na tentativa de retribuir esse afeto e por conhecer as dificuldades do povo que mora nas comunidades ribeirinhas, Malato e os outros viajantes resolveram ajudar da forma que podiam. “Surgiu então a idéia de realizarmos a viagem do ano seguinte abraçados a causas sociais e ambientais, retribuindo assim a cordialidade desse povo”.
De origem ribeirinha, Malato explica que no ano passado, em uma parceria com a Ação da Cidadania, eles conseguiram a doação de 5 mil livros, doados às escolas das comunidades que foram visitadas. Além disso, a expedição teve também preocupações ambientais. Os viajantes ensinaram as crianças das comunidades a fabricarem os próprios coletes salva vidas, feitos de garrafas pet recicladas.
Em 2010, o trajeto da expedição aumentou, assim como a ajuda às comunidades. Com saída de Manaus, em parceria com a Federação Amazonense de Canoagem (FAC), os viajantes conseguiram a doação de um caminhão de 20 mil donativos, entre roupas, sapatos, brinquedos e alimentos.
Para levar as doações às comunidades, eles contaram com o auxílio do Governo do Estado do Pará, que disponibilizou um barco de apoio, que, além de servir de transporte para os donativos, foi utilizado como moradia pelos viajantes.
O fator humano
A fotógrafa Vanessa Wosniak é moradora de Curitiba e acompanhou a viagem em 2010. Formada em turismo, ela conta que o interesse na expedição surgiu pela junção de dois assuntos do seu gosto: viagens e fotografia. Mas o que mais chamou atenção foi outro detalhe. “O que mais me motivou a querer participar foram os objetivos sociais desse projeto. Além de promover a canoagem, um esporte com um potencial enorme no norte do país, a expedição também teve propósitos sociais, ambientais e educacionais”, revela.
Ela conta que algo que chamou a atenção foram as diferenças de uma comunidade para outra – foram quase 30 visitadas, em 20 cidades diferentes. “Algumas são extremamente carentes do apoio do poder público. Têm escola, mas não têm professor. Em outras, há professor, mas o local usado para as aulas não têm estrutura, e crianças de classes diferentes têm aula na mesma sala”. Por outro lado, a fotógrafa revela que a expedição visitou lugares que dão exemplo. “Comunidades que plantam e pescam para própria subsistência e fonte de renda, além de contarem com escolas organizadas e bem estruturadas”.
A retribuição que Vanessa e os outros viajantes receberam estava na paisagem e no calor humano das comunidades ribeirinhas. Essas são memórias que ela garante levar para sempre. “Nos receberam como se fossemos da família. Essa foi a melhor parte da viagem: as pessoas. As crianças foram extremamente carinhosas. Em algumas cidades tinham escolas a nossa espera com faixas de boas-vindas, em outras preparavam apresentações de danças folclóricas, teatro. Foi fascinante e inesquecível”, descreve.
Resgate de uma tradição
Além do amor pelo esporte e a ajuda substancial ao povo, a expedição Manaus/Santarém de canoagem reforça um costume típico da região. Porém, o uso de canoas é bastante difundido apenas como meio de transporte. “Por incrível que pareça, a região norte do país não têm uma grande tradição no esporte. O uso das canoas é feito apenas nas tarefas cotidianas”, lamenta Malato.
Porém, ele vem tentando mudar esse quadro. Praticante do esporte há 15 anos, Malato concluiu neste ano o mestrado em Motricidade Humana, em que mostrou a canoagem tradicional como uma modalidade esportiva de identidade cultural do Pará.
O segundo passo do plano dele é mais ousado: implantar uma matéria na grade curricular das escolas ribeirinhas ligada a prática da canoagem. “Vejo essa modalidade esportiva muito ligada as nossas origens culturais. O objetivo principal da equipe é tornar a canoagem um dos esportes mais praticados e queridos da nossa região”.
Esse sonho se encaixa com outro. A difusão do uso esportivo das canoas pode significar o aumento da ajuda que a modalidade pode oferecer aos moradores da região, para aliar assim a prática esportiva à solidariedade e ao desenvolvimento social. “O grande sonho da nossa equipe é aumentar cada vez mais o número de colaboradores, para que a cada ano a gente possa contribuir cada vez mais com essas comunidades, levando cada vez mais donativos”, finaliza.