Estou eu caminhando pelo centro de Antonina quando ouço um garoto chamar “Professor! Professor!”. Dou uma olhada para os lados esperando que o mestre se apresente, mas nada. Depois de alguns segundos, a criança insiste “Professor! Professor!”. Dessa vez, percebo que o menino corre em minha direção. Sim, eu sou o professor.
Durante o 20o Festival de Inverno em Antonina, que aconteceu entre 11 e 18 de julho deste ano, eu ministrei a oficina Caranguejinho, junto à minha colega de turma Aline Michalski. Faziam parte da oficinas vinte crianças de 10 a 14 anos - a maior parte delas moravam em Antonina, mas algumas viajaram de Curitiba especialmente para participar do Festival. Elas fizeram um jornal diário durante a semana do evento.
Roger de Freitas Pereira, 14 anos, terceiro ano de Caranguejinho
O comecinho da manhã (para quem ficava dançando maracatu no trapiche até as 3h, 9h era madrugada) era parecido com a redação de um jornal de verdade – nada mais justo, éramos um jornal de verdade. Iniciávamos nossos dias com as sugestões de pauta: algumas muito boas, outras bem fraquinhas. Depois de nos certificar que eles sabiam com quem deveriam falar, o que deveriam falar e se tinham como tirar foto, mandávamos nossos repórteres para a rua.
Carlos Fernando de Lorenzo, 10 anos, com um fôlego de dar inveja a muito jornalista veterano
Como qualquer jornal de verdade, o fechamento era o momento mais estressante do dia. Agora eu sei como a alta cúpula se sente. Nessas horas que pen drives somem, fotos vão para pastas erradas e ninguém consegue tirar o cartão de memória da câmera que ficou emperrado no laptop (sim, isso aconteceu). Por outro lado, decidir o que vai na capa é algo sensacional. Creio que se você não sabe se quer ser jornalista ou não, é só fazer o teste de escolher qual assunto deve estampar a capa. É batata.
Mas voltando às crianças. Não posso dizer que foi um desafio 100% novo lidar com a combinação pré-adolescentes + jornalismo. Faço parte da equipe do Projeto Nossa Mídia, que trabalha com Educomunicação (Educação – cação + Comunicação) em Escolas Estaduais. No Caranguejinho, porém, a pressão era maior. A oficina existe há seis anos e algumas crianças já estavam na sua terceira participação. Ou seja, elas eram veteranas e eu, calouro e professor ao mesmo tempo. Imaginem a tranquilidade minha ao ficar sabendo um dia antes do início das atividades que tinha gente na fila para a inscrição à 1h do dia anterior.
João Flávio Cardoso, 13 anos, também pela terceira vez no Caranguejinho.
Pressionado ou não, sinto que fiz um bom trabalho. Não é fácil misturar a autoridade de um professor com a descontração esperada de alguém apenas cinco anos mais velho que a média dos “alunos”. Juro que tentei. E espero que algo de bom eles tenham tirado com tudo isso. Eu sei que eu tirei: a experiência de montar um jornal por dia (mesmo que um A4 dobrado), acumular as funções de pauteiro, editor, diagramador e dono da gráfica e ainda mediar as conturbadas relações entre grupinhos de adolescentes que nem sempre se dão tão bem assim. Isso sem contar o misto de sensações ao ser parado na rua com gritos de “Professor! Professor!”.
Mayra Lima Pires, 12 anos, dando-me a impressão de que eles também tiraram algo de bom com tudo isso.