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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 29/08/10 às 01h06

O Escotismo como prática social e cidadã

Atividade alia diversão a aprendizado e vai além do que é mostrado na ficção
Reportagem Cássia Marocki
Edição Bruno Calzavara
Henrique Sanches
Escoteiros participam do III Jamboree Nacional, em Brasília.
Escoteiros participam do III Jamboree Nacional, em Brasília.
Disney
Os sobrinhos do Pato Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho: escoteiros dos desenhos animados.
Os sobrinhos do Pato Donald, Huguinho, Zezinho e Luisinho: escoteiros dos desenhos animados.

Um menino de uniforme e distintivo ajuda velhinhas a atravessar a rua e vende biscoitos de casa em casa. Essa é a ideia de escoteiro que habita o imaginário das pessoas – estereótipo presente em livros, desenhos animados e filmes. O que poucos sabem é que ser escoteiro é assumir um compromisso de responsabilidade, lealdade e respeito. “O escotismo é uma atividade educacional não formal”, explica Luciano de Loyola, diretor do Grupo Escoteiro São Marcelino Champagnat. “Diferente da escola, os escoteiros aprendem de uma maneira mais prática a serem autônomos e desenvolverem senso de organização”, afirma Loyola.

Quando o escotismo foi criado, há mais de 100 anos, pelo inglês Robert Baden-Powell, ele o descreveu em seu livro Escotismo para Rapazes como “uma escola de cidadania através da destreza e habilidade em assuntos mateiros”. A palavra mateiro se referia ao explorador das matas, que consegue se orientar por meios naturais. Por isso, fazer trilhas e acampamentos são atividades características dos escoteiros. Baden-Powell criou as Leis Escoteiras – e com elas, a Promessa Escoteira – que asseguram que o jovem escoteiro deve se comportar de forma a se tornar um exemplo de fraternidade, altruísmo, responsabilidade e disciplina.

Baden-Powell foi tenente-general do Exército Britânico e resolveu escrever Escotismo para Rapazes depois que seu livro Ajudas à Exploração Militar, destinado aos soldados ingleses, fez sucesso também entre as crianças. Meses antes de lançar Escotismo para Rapazes, Baden-Powell realizou o primeiro acampamento escoteiro, em 1907, que foi considerado um sucesso. Depois de publicado, o livro se popularizou rapidamente, fazendo com que grupos escoteiros surgissem não só na Inglaterra, mas em muitos outros países. Baden-Powell então deu baixa do exército para se dedicar inteiramente ao escotismo.

A Organização

As atividades dos escoteiros variam conforme o grupo etário. “Quando se é lobinho, a principal tarefa é brincar. Depois, você tem mais responsabilidades, fica independente”, conta Renato Scholz, pioneiro do Grupo Escoteiro São Luiz de Gonzaga. Scholz entrou no escotismo há 10 anos por incentivo dos pais, e encontrou na atividade uma forma de se divertir, encontrar os amigos e, ao mesmo tempo, aprender lições de vida. “O mais importante, além das amizades, são os valores adquiridos”, acredita..

É justamente por causa desses valores adquiridos que, segundo Loyola, os escoteiros ajudam a sociedade. “Além de participarem de ações voltadas para a natureza e de trabalhos voluntários, observa-se que pessoas que fizeram escotismo a vida toda desenvolvem uma maneira diferente de agir perante a sociedade”, afirma o diretor, que começou a participar do escotismo como pai de apoio por causa dos seus filhos.

Os escoteiros são separados por faixa etária: dos 7 aos 10 anos, lobinhos; dos 11 aos 14 anos, escoteiros; dos 14 aos 17 anos, sêniores para os meninos ou guias para as meninas e, dos 18 ao 21, pioneiros. Segundo a União dos Escoteiros do Brasil, existem seis mil escoteiros no Paraná. Eles estão divididos em 96 Grupos Escoteiros.

Decadência?

Apesar de todas as vantagens, os integrantes de grupos escoteiros têm observado uma redução significativa no número de participantes nos últimos anos.“Em 2006, nós escoteiros ocupávamos a área do bosque todo da nossa sede; agora, apenas metade do lugar é utilizada”, observa Henrique Sanches, pioneiro do Grupo Escoteiro São Luiz de Gonzaga. Sanches explica que muitas pessoas largam o escotismo depois que começam a faculdade.

Quanto a novos membros, o problema é a falta de iniciativa para visitar os escoteiros e conhecer melhor suas atividades. “Os jovens acham que é perda de tempo”, opina a também pioneira do Grupo Escoteiro São Luiz de Gonzaga, Natália Vieira Rosa. Sanches concorda. “As pessoas acham que vão perder a tarde de sábado indo aos escoteiros, preferem ficar em casa ou ir ao shopping”. Scholz acredita que a falta de informação das pessoas a respeito do escotismo impede que elas se interessem pela atividade. “Às vezes as pessoas acham que é a mesma coisa que elas veem na TV: ficar sem comer, fazer fogo com pauzinho, ou acham que é algo militar”, diz.

Enquanto isso, lá fora…

Porém, falando em parâmetros mundiais, o espírito escoteiro parece estar mais vivo do que nunca. Em 2007, na Inglaterra, foi realizado um Jamboree Mundial – acampamento que reúne escoteiros de vários países – para comemorar os 100 anos do primeiro evento semelhante organizado por Baden-Powell e do lançamento do livro que deu origem à atividade.. Sanches foi um dos milhares de escoteiros que se reuniram em Londres para o Jamboree Mundial três anos atrás, e conta a experiência memorável que viveu. “O neto de Baden-Powell leu uma carta escrita pelo seu avô e só quem estava no Jamboree Mundial sabe o que dizia”, relata.

Ao completar 21 anos, a trajetória como escoteiro chega ao final. O jeito para continuar na atividade é tornar-se chefe. “Ser chefe é muito mais trabalhoso, mas não consigo ver o dia em que direi a mim mesmo ‘não serei mais escoteiro’”, comenta Scholz. Natália ainda é incerta sobre o futuro. “Enquanto eu for jovem, serei escoteira”, garante. Para Sanches, não há dúvidas. “Vou ser escoteiro até morrer. A última coisa que vou fazer na vida é sair do escotismo”.

Histórias de Acampamento, por Henrique Sanches: “Quando eu estava na tropa escoteira, nós fomos acampar e meu monitor, Rafael Neves, foi o cozinheiro da refeição. Ele fez nhoque e, quando estava tudo pronto, só precisava escorrer a água, ele pegou a panela e foi andando até a fossa líquida. Mas como estava escuro e não dava pra ver muito bem o chão, ele tropeçou num toco de árvore e caiu com a panela e tudo no chão. Demos muita risada! Nós o ajudamos a se levantar e pegamos de volta o nhoque pra panela, demos uma ''lavada'' e comemos nhoque com grama e com mais alguns bichinhos que estavam no chão. A comida estava boa, só foi estranho comer grama”.

A Organização Mundial dos Escoteiros preparou um vídeo para explicar ao mundo as atividades feitas por eles (em inglês).



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