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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Tubo de Ensaio | Publicada em 02/09/10 às 20h38

Palhaço: a desafiadora arte de ser você mesmo

Desventuras de uma repórter sem graça no humor que topa passar um final de semana vestida de palhaço
Reportagem Mariana Cruz
Edição Marcela Varasquim
MARCELA VARASQUIM
Nariz de palhaço e o certificado em mãos: a missão de se tornar palhaça foi cumprida
Nariz de palhaço e o certificado em mãos: a missão de se tornar palhaça foi cumprida
JANAÍNA BITTENCOURT
Ao todo nove pessoas se aventuraram na arte de ser palhaço junto com Mariana
Ao todo nove pessoas se aventuraram na arte de ser palhaço junto com Mariana

Definitivamente, não sou uma pessoa engraçada. Exceto quando caio na frente dos outros ou faço comentários inapropriados fora de hora. Além disso, meu humor é ácido e inconstante, não rio nas melhores horas. Ou seja, tenho o mesmo potencial para ser palhaça do que o Tiririca tem para ser presidente do Brasil – fugindo no momento da crítica sobre a infantilidade e superficialidade da política nacional. Sabendo disso (e talvez por isso) resolvi topar o desafio homérico de freqüentar uma oficina de palhaços no fim de semana.

Na verdade, eu não sabia o que se esperar dessa experiência (Uma escola com pessoas maquiadas e caracterizadas jogando torta na cara das pessoas na rua? Um guia de como contar piadas? Técnicas de como cair no chão sem se machucar?). Por isso confesso que tive medo do desconhecido, de ser exposta aos outros, de ser o foco, de me enrolar. Todos esses medos que nos acometem e nos fazem andar para trás.

Conferi o endereço duas vezes e parei. Respirei fundo e atravessei a rua. Entrei em um grande balcão e me senti em um picadeiro, piso de madeira, paredes coloridas, coxias ao fundo, bancos de platéia, enfeites feitos com nariz de palhaço e até um piano. Rafael Barreiros, o palhaço Alípio e ministrante do curso (mestre, professor, tudo menos tio), nos recebeu sendo ele mesmo e com um pouco de humor aqui e ali começamos jogos de improviso e expressão corporal, ainda tímidos com os outros e inseguros.

A iniciação

Éramos dez pessoas, e por mais memória que nos falte era difícil não saber o nome de todos, já que os jogos requeriam improvisação e interação constante. Marcos, Robson, Aline, Marina, Christiane, Regina, Luma, Janaína, Tainá e eu brincamos o tempo todo com jogos que exigiam uma certa coordenação motora ou concentração, assim o ambiente estava propício para o erro. Ah, era um festival. E as reações eram as melhores – havia os que ficavam vermelhos e os que cujos gestos os entregavam. E a Christiane foi a responsável pela trilha sonora do dia – ela não parou de rir durante a oficina inteira, sem exageros! Eu morri de medo de errar, mas depois de um tempo fui me entregando à brincadeira. Foi muito diferente do que eu imaginava, mas aquela experiência pretendia nos revelar algo mais importante para a essência do palhaço do que imaginávamos.

Para nós era brincadeira, mas todos os exercícios evidenciavam o erro, o diferente, o perdedor. Rafael fazia os perdedores darem um “presente” aos outros pagando um mico no meio da roda. O Marcos teve de ser um cocô, a Regina uma Bandeira, a Tainá um Cactus, e por aí vai. E é justamente daí que nasce o palhaço, ele é o perdedor que se expõe aos outros e pede para ser aceito dessa forma. É um arquétipo que representa o ridículo da humanidade como um todo.

Nós, pessoas modernas, estamos constantemente inseridos em camadas e contextos diversos. Exigem-se competências adequadas a cada ambiente social, e nosso comportamento é influenciado pelo ambiente e pelas regras que o regem. Explico-me: agimos diferente com cada pessoa e de acordo com o ambiente em que estamos. Se estamos em uma festa com nossos amigos, a nossa fala é mais fluida e solta, porém se estamos em uma reunião com o chefe não usaremos do mesmo registro de linguagem.

Por isso vou usar a hipérbole das máscaras: usamos diversas máscaras no dia-a-dia e às vezes esquecemos de tirá-las. Máscaras aqui não no sentido maniqueísta de que elas escondem seu verdadeiro ser e te falseiam, mas sim maneiras como a nossa personalidade se apresenta ao meio onde convive e para o mundo no qual existe e se relaciona. Por isso, qual foi minha surpresa ao ver que o que estávamos fazendo ali era justamente esse processo de desconstrução, de esvaziamento, de catarse.

O palhaço não é um personagem, ele é ele mesmo – ainda que um pouquinho exagerado. Ele traz do fundo de si o que ele é e mostra aos outros, sem medo de parecer ridículo. Ele é humano. Por isso nos identificamos com seus erros. Ele é inocente e puro. E nós temos tanto medo de parecermos ridículos aos olhos do outro.

O “estar” palhaço

Voltando à oficina, Rafael nos fez virar de costas para os outros, fechar os olhos e nos convidou a mergulhar dentro de nós mesmos para tirarmos todas as camadas, máscaras e amarras que nos prendiam. Nos convidou a colocar o nariz do palhaço – a máscara que menos esconde e mais revela – e a nos sentir crianças novamente, entrar no momento sem pensar no antes ou depois e vivê-lo plenamente, como uma criança, que entra no jogo de corpo e alma mesmo sabendo que é um jogo. E, daquele momento em diante eu realmente entrei na brincadeira sem pensar no depois.

E esse foi um dos momentos mais marcantes. Rafael olhava cada um nos olhos em silêncio durante alguns segundos, não sei se buscando a entrega, a infância dentro dos olhos, a pureza da criança carente por brincadeira. Porém Marcos havia esquecido de tirar uma máscara, a de ator. Ele interpretava um palhaço, fazia gracinhas com as mãos, imitava uma criança. Rafael lhe dizia com sinceridade, sem brincadeira: Deixe de ser marrento! E ele não se entregava, não abaixava a guarda. Até que ficamos todos o olhando e Rafael dizia: Olha, eles só querem brincar com você, cadê aquele menino que não sabe ficar em pé com uma perna só, que sempre erra os nomes na brincadeira de pega-pega, cadê? É esse Marcos com quem queremos brincar. Depois disso, a armadura caiu. Marcos finalmente se entregou e deu-se a luz, estavam feitos os palhaços!

O tempo restante da oficina foi repleto de mais brincadeiras, mas elas tinham um tom diferente, uma luz no olhar de cada um que transparecia nas atitudes. Tinham ido embora o medo, a vergonha, o receio. E o que restou foram crianças ávidas por brincadeiras, pelo jogo. Para Rafael, o palhaço nada mais é que brincadeira e jogo – aí depende com quem se joga e como se joga. É entrar no jogo disposto, sem medo de errar, e ser verdadeiro. Com quase dez anos de profissão e diversas oficinas realizadas, ele encara a atividade com paixão e como um desafio diário. “O que mais gosto é de poder ser eu mesmo e as pessoas gostarem e aceitarem”, revela.

O objetivo de ir além de arrancar risadas da platéia parece ser fator comum entre os alunos: mais de 50% dos interessados no curso não o procuram pretendendo ser palhaços. Aline Xavier, estudante de artes da UFPR, não sabia bem se queria ter um palhaço em si ou ser um, mas veio pela possibilidade de abertura de visão para outros mundos – no caso, o lúdico -, e ficou satisfeita com o curso. “Tinha muita dificuldade com aceitar o erro, e agora aprendi a lidar melhor com isso e não ter medo de falhar”, conta.

E, qual foi a minha surpresa ao constatar que o ensinamento era tão simples e verdadeiro: uma oficina para se aprender a aceitar quem você era, se permitir errar e se perdoar (ou correr o risco de se expor por inteiro ao outro, podendo parecer ridículo). E só eu sei como sou autocrítica e controlada.

E esse não foi o único ensinamento. Christiane Pacholok, advogada e dona da risada intermitente mais contagiante do dia passou por um momento único. Rafael lhe disse com sinceridade entre uma brincadeira e outra que a sua risada em um primeiro momento era contagiante mas depois era como um mecanismo de defesa, que só fazia a sua atitude ficar forçada. Ele também lhe disse que ela era muito mais engraçada quando ela era ela mesma, e emendou: Olha a Christiane séria gente, finalmente!

Depois da oficina, ela contou que desde pequena tentava ser um estereótipo perfeito, alguém que os outros queriam que ela fosse. “Aprendi que quanto mais sou eu mesma eu me desenvolvo melhor e sei lidar melhor com a situação”, explica. A advogada também conta que aprendeu a se expor e se oferecer em vez de se esconder por medo.

Ao final, formada e passada no curso, sinceramente, não sei se meu humor está mais contagiante ou se já posso encarar platéias. Mas a Mariana que entrou já não é mais a mesma que saiu. Ainda tenho problemas com autocrítica, mas o primeiro passo para eu começar a aceitar meus erros e me perdoar já foi dado. Já é uma vitória eu ter reescrito esse texto duas vezes e não seis, como eu teria feito normalmente. Não sei se fui uma palhaça escrevendo, mas era puramente a Mariana que digitava. Escrevi o texto sem amarras, sem pré-conceitos, sem camadas excessivas. E sim o que senti no momento, verdadeiramente. Desculpe, caro leitor, se não o fiz rir durante o texto, quem sabe preciso freqüentar mais horas de curso. Mas deixe eu lhe contar um segredo: como palhaça, sou uma ótima jornalista.

A História do Nariz Vermelho

Para muitos historiadores Tom Belling é o responsável pela tradição do nariz vermelho dos palhaços – como cita Mário Bolognesi em seu livro “Palhaços” da editora Unesp.

Tom era um acrobata e cavaleiro, filho do proprietário do Circo Renz e um dia enquanto fazia palhaçadas fora do picadeiro com uma peruca velha e um paletó do avesso foi visto pelo diretor do circo que o mandou direto para o picadeiro.

Alguns dizem que Tom estava embriagado de Gim, outros que foi apenas nervosismo, o fato é que ele entrou totalmente atrapalhado no palco, tropeçou e caiu de cara no chão. Ao levantar seu nariz estava totalmente vermelho o que resultou em muito riso da platéia!

Devido ao sucesso, a situação passou a ser encenada em todos os espetáculos seguintes, levando o povo ao delírio com aquela criatura ridícula e atrapalhada que tem um enorme poder de nos fazer sorrir.

Origem do palhaço

Clown se traduz por palhaço, mas as duas palavras têm origens diferentes. Clown está ligado ao termo camponês “clod”, ao rústico, à terra. Palhaço vem do italiano “paglia” (palha), usada para revestir colchões. O mesmo tecido grosso e listrado do colchão era usado nas primeiras roupas dos palhaços.

Serviço: A Cia dos Palhaços nasceu de um grupo de estudos formado em 2004 com a intenção de pesquisar e buscar o aprofundamento na arte do Palhaço. O grupo tornou-se uma companhia de teatro.

Em 2009 o grupo tem sede própria: rua Amintas de barros,nº 307,Centro. Ministram oficinas , tem espetáculos e eventos de repertório e mantém fiel sua pesquisa na linguagem da Arte do Palhaço.



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