O famoso Banco Imobiliário está de cara nova desde julho. Depois de 66 anos usando mini-cédulas de papel, a Estrela uniu forças com a Mastercard e criou uma máquina de cartão de crédito para o jogo. A partir de agora, cada participante tem seu próprio cartão para efetuar suas “transações econômicas”.
Para Simone de Oliveira, mãe de uma criança pequena, essa mudança é um sinal de como as crianças já estão habituadas às novas formas de pagamento. “Quando meu filho quer comprar algo, ele pergunta se eu tenho dinheiro. Caso eu responda não, ele logo complementa: 'Ah, então passa o cartão'", conta.
O Banco Imobiliário e o filho da Simone acompanham uma tendência mundial: o aumento do uso dos cartões de crédito e de débito. Segundo uma pesquisa do Banco Central, esse crescimento no Brasil foi de 10% em 2009. Ao todo, foram mais de 375 bilhões de reais movimentados durante todo o ano passado. São 152 milhões de cartões de crédito e 221 milhões de débito em circulação pelo país - um total de 373 milhões de cartões para 190 milhões de habitantes, praticamente dois cartões por pessoa.
Tendo em vista esse cenário, nada mais natural do que o tradicional Banco Imobiliário acompanhar as mudanças da sociedade e da tecnologia. Essa é a opinião do coordenador do curso de Economia da FAE, Gilmar Mendes. Ele também ressalta a importância do jogo na educação financeira das pessoas.
E no dia-a-dia…
A garçonete Luciane França Pereira diz que a maioria dos clientes usam cartão para pagar as contas. Ao contrário do que acontece com o dinheiro “vivo”, que pode ser falsificado, Luciane considera que o cartão causa poucos problemas. “A única situação ruim que pode acontecer é quando o banco está fora do ar”, completa a garçonete.
Mas nem todos se rendem tão fácil assim às novas formar de pagamento. A Confeitaria das Famílias, inaugurada em 1945, não aceita nenhum tipo de cartão ou vale-refeição. Os pagamentos são todos efetuados em dinheiro. Ederson Tadeu Adancheski, gerente do local, explica que a empresa não concorda com as taxas cobradas pelos bancos para o uso do cartão. “Achamos que eles ganham muito dinheiro em cima do comércio com essas cobranças abusivas”, protesta o gerente. Adancheski diz que a maioria dos clientes da confeitaria já sabe como funciona o esquema de pagamento. “Não há previsão para a instalação da maquininha aqui”, finaliza.
Os dias do papel-moeda estão contados?
Segundo o professor Gilmar Mendes, não. Para ele, as diferentes formas de pagamento continuarão coexistindo. “Apesar da crescente evolução do uso de instrumentos de pagamentos alternativos, as dimensões continentais e as características heterogêneas de parcela expressiva dos países do mundo sempre reservarão espaço para a ocorrência de transações com moeda papel”, explica. Porém, o uso do dinheiro “vivo” sofrerá uma forte redução.
A utilização cada vez maior do cartão traz diversos benefícios. A começar pela praticidade e agilidade que ele é capaz de dar às transações econômicas. Os cartões também são mais ecologicamente corretos, já que a produção de cédulas e moedas demanda o uso de recursos naturais como papel e metais. O motivo mais alegado pelas pessoas é a segurança que os cartões dão. “É muito mais seguro que o dinheiro em papel. Se você for roubado, pode ligar para o banco e cancelá-lo”, explica o consultor financeiro Edson Napoleão de Araújo. Essa é a razão que faz o aposentado Adair Moreira preferir essa forma de pagamento. “Se eu for assaltado e estiver com dinheiro, terei um prejuízo muito grande. Já se estiver com cartão, o máximo que terei é uma dor de cabeça na hora de ligar para o banco e cancelar a conta”, diz.
Simone de Oliveira tem outra razão para preferir o cartão. “Devido a minha situação financeira, acabo sempre usando o crédito porque posso comprar em parcelas”, diz ela. Porém, ela ainda vê qualidades no uso das cédulas. “Com o dinheiro vivo tenho a opção de pechinchar e comprar o que quero por um preço menor”, completa.
O outro lado da moeda
Apesar de todos esses pontos positivos, existem também os negativos. O primeiro, e mais grave, segundo o economista Gilmar Mendes, é o consumismo originado pelo uso do cartão. “O impulso consumista é gerado pela facilidade de efetivação das operações e do pagamento, inclusive parcelado, estimulando o predomínio do desejo pela necessidade”, explica. O segundo ponto negativo é o esfriamento das relações pessoais na hora de pagar a conta. Para o consultor financeiro Edson Napoleão, o papel tem o poder de provocar uma certa relação entre o cliente e o atendente. “Por exemplo, na hora de pagar com papel você acaba conversando com o caixa sobre o troco”, exemplifica.
Carina Paula, vendedora de cartões de uma grande loja de departamentos, tem seus motivos para preferir a forma mais tradicional de pagamento. “Com o dinheiro, você pagou e acabou. Já o cartão você tem de ficar se preocupando em pagar todo mês”, esclarece.
As novas formas de pagamento
Engana-se quem pensa que o cartão veio para ficar. O professor Gilmar Mendes arrisca um palpite sobre a data de validade dele. “Essa forma de pagamento tem, no mínimo, mais três décadas de expectativa de vida”, diz o economista. Novas formas de pagamento já existem hoje e podem ficar cada vez mais populares no futuro.
Uma delas é o Twitpay, que oferece a possibilidade de fazer seus pagamentos pelo Twitter. Para utilizar o serviço, basta preencher um cadastro e colocar o username para quem será transferido o dinheiro e a quantia em dólares a ser transferida: “Pagamento para @exemplo U$100”. A outra pessoa também deve ser cadastrada no Twitpay para a operação ser realizada.
Outra, bastante popular no Japão, é o pagamento pelo celular, que cresceu 250% em 2009 no Brasil. No Obopay, como é chamado, as pessoas vinculam as informações de seus cartões de crédito com seu número de telefone móvel. Os usuários podem fazer transferências e outros serviços bancários através de um simples SMS. Também é possível fazer compras pelo celular através desse serviço.
O consultor financeiro Edson Napoleão é mais ousado. Segundo ele, dentro de alguns anos o cartão pode ser descartado pelo uso de digitais ou pela leitura da retina.