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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Opinião | Publicada em 20/09/10 às 22h27

Série Arte, Bicicleta e Mobilidade: Espantar para causar discussão e, mais tarde, conscientizar

Para um dos organizadores do ABM, a sociedade já se mobiliza para conquistar mais espaço para ciclistas e pedestres
Reportagem Luiza Barreto
Edição Vivian Teixeira de Faria
Vinícius de Carvalho
Para Goura, a bicicleta vai além do simples meio de transporte
Para Goura, a bicicleta vai além do simples meio de transporte

Desde 2007, o Arte, Bicicleta e Mobilidade procura, de maneiras diversas, fazer um elogio à bicicleta e uma crítica aos carros. Por trás do evento, estão pessoas como Jorge Brand, conhecido como Goura Nataraj, nome recebido na iniciação do ioga, que participa do coletivo Interlux. Além de se preocupar com questões relacionadas à arte e à sociedade, Goura dá aulas de ioga, sânscrito e meditação. Em entrevista ao Comunicação, ele fala sobre a relação entre as pessoas e os meios de transporte, especialmente o carro, e o processo de conscientização para a importância das bicicletas.

Jornal Comunicação – Qual é o principal objetivo do evento Arte, Bicicleta e Mobilidade: chamar atenção para a questão da bicicleta ou para o meio ambiente?

Goura Nataraj – Nem uma coisa nem outra. O principal objetivo é provocar um espanto. Chamar a atenção para algumas coisas que as pessoas em geral nem se questionam. No nosso cenário atual, ver a bicicleta como meio de transporte já é uma forma de pensar uma coisa diferente e desenvolver um olhar diferente sobre a cidade. Na filosofia o espanto é o que inicia toda a reflexão. A partir do momento em que o sujeito se vê provocado, espantado ele começa a pensar. Acho que o objetivo é isso, mas é claro que levantamos várias questões práticas em relação a isso.

Comunicação – Eventos como o Desafio Intermodal ajudam a conscientizar a sociedade da importância da bicicleta?

Goura – Eu acho que os eventos provocam uma reflexão, colocam em pauta questões que deveriam ser permanentes. Fazemos as pessoas pensarem em que tipo de cidade querem viver, que tipo de relação querem ter com as pessoas com quem convivem. Querem só ultrapassá-las ou querem conviver com elas? Pelo menos nesse mês, conseguimos pautar alguns assuntos para a cidade como um todo.

Comunicação – A escolha do transporte está relacionada a status social nas grandes cidades?

Goura – Com certeza. O carro no Brasil é um fetiche. As pessoas se preocupam se o carro risca, trocam de carro a cada 2 ou 3 anos, os carros são cada vez maiores. É uma guerra social. Quem está no ônibus gostaria de estar no carro e quem está no carro fica irritado, pois há muitos carros. Assim vemos que quem está na bicicleta e tem consciência do uso político dela está muito mais feliz, apesar da falta de estrutura e do risco. Utilizando a bicicleta as pessoas ficam menos estressadas, mais livres. Se buscamos uma cidade mais autônoma, com pessoas que pensem por si próprias e que valorizem a liberdade, nós temos que perceber que a bicicleta tem que estar presente no dia-a-dia. No fundo, o ABM visa trazer a bicicleta como um símbolo. Símbolo de uma forma diferente de ver a realidade, de sentir nossos corpos, de se relacionar com a bicicleta. É um elogio a esse símbolo. Da liberdade, da alegria, da diversão, do lúdico.

Curiosidade

Curitiba tem a quarta maior frota de veículos do Brasil, com 1.210.507 veículos, perde apenas para São Paulo (6.249.837), Rio de Janeiro (1.991.786) e Belo Horizonte (1.253.773).

Comunicação – Há uma mudança no comportamento das pessoas no que diz respeito à escolha de meios de transportes?

Goura – Tem mais gente pedalando, sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, tem muito mais carro e eles estão cada vez mais agressivos. As pessoas estão cada vez mais apressadas e a partir do momento em que estão dentro do carro, suas próprias bolhas protetoras, não se importam com os outros. Existe uma postura de que os motoristas não respeitam os pedestres, nem os ciclistas, mas tem uma mudança de paradigma ocorrendo. Há uma tendência, em todos os grandes centros urbanos, de priorizar os pedestres, as bicicletas e os transportes coletivos e diminuir a importância do carro.

Comunicação – O que é necessário para que haja uma maior conscientização com relação ao uso da bicicleta?

Goura – Da parte do poder publico e das instituições, é necessário diminuir a demagogia no discurso e começar ações efetivas de segurança para o ciclista e para o pedestre. Como semáforos, calçadas e faixas de pedestres decentes, instalação imediata de ciclofaixas e de bicicletários. Da parte dos cidadãos, é preciso exigir que as autoridades cumpram o que deve ser feito, mas não esperar passivamente. As pessoas têm que começar a se movimentar, dar mais espaço para a bicicleta, pensar um cenário diferente. Somos nós que fazemos a cidade, não é necessariamente a cidade que nos faz. Tem que ter apoio dos dois lados. E eu acredito que o movimento está ajudando nisso, pelo menos gerando uma conscientização.

Comunicação – Qual é a principal vantagem de usar a bicicleta?

Goura – Melhora a saúde física, psíquica e espiritual. Eu acho que o ciclista está em contato com o corpo, o que, dentro da nossa sociedade, é muito importante. O ciclista sabe o potencial de respiração que ele tem, sabe como sente o próprio corpo. Nós guardamos no corpo tudo o que acontece nas nossas vidas, portanto se a vida é muito sedentária, perdemos a possibilidade de nos libertarmos dentro do nosso próprio corpo.

O Desafio Intermodal abriu o mês da bicicleta e, esse ano, incluiu outras categorias. Os 28 participantes saíram do Cietep/Fiep, na Avenida das Torres, no bairro Jardim Botânico, e chegaram no estacionamento do Estádio Joaquim Américo (Arena da Baixada), no Água Verde. Eles puderam escolher o percurso, mas precisavam passar pela Praça Santos Andrade. A bicicleta mais uma vez fez o percurso em menos tempo. Confira aqui os melhores tempos de cada categoria:

- Davi (bicicleta) - 28min39s

- Ricardo (moto) - 32min22s

- Iara (carro) - 43min30s

- Anderson (correndo) - 43min59s

- Rodrigo (ônibus) - 54min40s

- Julião (van) - 56min44s

- Gabriel (andando) - 1h09m39s

- Osiris (cadeirante/ônibus) - 1h35min50s

- Gilmar (deficiente visual/ônibus) - 1h45min45s



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