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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Comportamento | Publicada em 21/09/10 às 22h55

Na contramão do mundo digital, vinis seguem tocando

Apesar da concorrência com aparelhos tecnológicos, o mercado de vinis ainda vive no Brasil
Reportagem Jéssica Maes
Edição Bruno Calzavara
Jéssica Maes
Além de sebos e lojas especializadas, grandes redes também comercializam vinis
Além de sebos e lojas especializadas, grandes redes também comercializam vinis
Jéssica Maes
Let Me Sing My Rock and Roll, de Raul Seixas, foi produzido por fãs e é uma raridade
Let Me Sing My Rock and Roll, de Raul Seixas, foi produzido por fãs e é uma raridade

“Saindo das prensas: Jorge Ben e Tom Zé. Clássicos em vinil”, anunciava um tweet da Polysom – que tem mais de 4 mil seguidores. Única fábrica de discos em vinil da América Latina, a Polysom reabriu no segundo semestre deste ano em busca do nicho saudosista do mercado da música. Colecionadores e comerciantes contam seu (a)preço pelos discos e o que o vinil tem de tão especial.

Enquanto várias pessoas procuram players digitais de música cada vez menores e que comportem várias horas de som, há quem prefira os 31 cm e aproximadamente 40 minutos que têm os LPs (ou Long Plays). O admirador e colecionador de vinis Rogério Gajda herda a paixão da família. “Meus pais e meus tios sempre mexeram com vinil. E eu comecei a gostar com 14 anos, mais ou menos, quando trabalhava como DJ”, conta ele, que alimenta esse “vício” há 18 anos. “Tenho cerca de 800 discos em casa. A coleção só não é maior por falta de espaço físico”.

O espaço de que Rogério sente falta está mais do que presente na loja de música de Clóvis Cordeiro. Desde 1992 no negócio da música, o estoque de Clóvis gira em torno de 20 mil discos, além dos CDs que ele também vende. Segundo ele, de 2003 para cá, a procura por LPs supera a demanda por CDs. “O que mais motiva as pessoas a consumirem vinis é a qualidade superior de som e a arte da gráfica”, opina. O recente colecionador Cássio Oliveira concorda. “O vinil é grande, dá mais espaço para o projeto gráfico. Você dá atenção pra ele, tem mais emoção”, explica Cássio. A coleção de 150 discos foi iniciada há cinco anos, quando passou a ouvir rock mais antigo, como Led Zeppelin, The Doors e Beatles.

No sebo que Marilene Gomes tem em Curitiba, esses são alguns dos artistas mais procurados por um público bem definido. “A maioria dos compradores são homens, na faixa de 40 a 60 anos. São poucos os jovens que procuram os vinis”, comenta. De acordo com Marilene, além do rock clássico, os discos de MPB e sertanejo de raiz também estão entre os mais vendidos.

Paixão que custa caro

Na época em que as pessoas fazem downloads gratuitos de música com mais frequência do que tomam banho, o hábito de comprar vinis requer mais do que o prazer de escutar o barulhinho da agulha no LP. Na loja de Clóvis e no sebo de Marilene, os LPs mais vendidos estão na faixa de R$ 30. Os exemplares mais raros, porém, podem extrapolar - e muito - esse preço. Na loja de Marco Cunha, os preços chegam a R$ 1500: valor cobrado pela da antologia de Raul Seixas, Let Me Sing My Rock And Roll. Marco conta que foram produzidas apenas mil cópias, em 1985, por isso o custo é tão alto.

Para ele, o preço dos vinis também afugenta os jovens. “Os meus clientes fieis são homens, estabelecidos profissionalmente, que podem dispor de 300 a 400 reais para comprar vinil”, conclui Marco, que tem em seu acervo pessoal mais de 8 mil discos adquiridos em feiras de colecionadores.

E todo mundo gosta?

Apesar de todo o romantismo e tradição que envolvem os LPs, o gosto por eles não é unânime. A fragilidade, a dificuldade de conseguir material para reprodução – como cápsulas e agulhas – e o chiado crônico de alguns discos fizeram com que Orion Barbosa vendesse sua coleção, acumulada de 1975 a 1989. “Na época em que comprava vinil, essa era a mídia de melhor qualidade sonora, pois a alternativa era a fita cassete”, conta Orion, que hoje é um consumidor assíduo de outras mídias como CD, DVD e BluRay.

O futuro

Apesar de Orion achar que o futuro dos LPs se resume a curiosos ou “aquele pessoal excêntrico”, os vendedores, fabricantes e compradores afirmam o contrário. Para João Augusto, um dos donos da fabricante Polysom, o trunfo dos discos de PVC é exatamente sua aura old-fashioned, o que afasta os apreciadores de avanços tecnológicos. A fábrica já lançou, em 2010, trabalhos de diversos artistas brasileiros como Cachorro Grande, Fernanda Takai, Nação Zumbi e Pitty – que, além de cantora, também é colecionadora e amante de vinis.



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