RSS
Blog da Redação
Quem Somos
Expediente
Galeria
Fale Conosco
Impresso
Rádio
TV
Galeria






Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Opinião | Publicada em 25/04/07 às 02h47

Bárbara apaixonada

Bárbara Heliodora, a maior autoridade em Shakespeare do país, vive há 68 anos um romance com o autor inglês
Reportagem Priscila Guimarães, especial para o Comunicação On-line
Edição Sandoval Poletto
foto divulgação
Os cabelos brancos e o riso inofensivo de avó escondem uma ferina crítica, shakespeareana de coração
Os cabelos brancos e o riso inofensivo de avó escondem uma ferina crítica, shakespeareana de coração

Diferente do estereótipo da velhinha de 80 anos que passa o dia em casa fazendo crochê e cuidando de netos e bisnetos, Bárbara Heliodora é crítica teatral, colunista do O Globo. E exerce o papel com a sinceridade que incomoda alguns e com o conhecimento que desperta a admiração e o respeito de muitos. Junto com os cabelos brancos, os óculos e o jeito didático de falar sobre Shakespeare, está a paixão pelo autor elisabetano. Se alguém questiona o motivo, a resposta vira pergunta: “Você já leu?”. Para ela, o dramaturgo é bom até mesmo quando é ruim. E não há como gostar e conhecer teatro sem admirá-lo. Atualmente, além das aulas, palestras, críticas, artigos e demais textos, Bárbara trabalha na tradução de todas as obras de Shakespeare.

Na segunda-feira, 23, ela esteve em Curitiba, palestrando no Abril de Shakespeare II, um ciclo de debates de três dias sobre o autor inglês organizado através da parceria entre UFPR, UTFPR, Uniandrade, FAP, Cultura Inglesa e Solar do Rosário. A octogenária e ferina crítica falou ao Comunicação. Confira abaixo:

Comunicação: Como começou seu interesse por Shakespeare?

Heliodora: Me lembro que quando tinha 12 anos minha mãe me deu um livro de Shakespeare. É claro que eu só li alguns pedaços, porque meu inglês não era muito bom. E eu sempre gostei dele e de teatro. E fui estudando. Eu me graduei nos Estados Unidos e lá fiz um ano de Shakespeare com uma professora maravilhosa. Me apaixonei de vez. Acho que quem gosta de teatro, gosta de Shakespeare inevitavelmente.

Comunicação: O que o torna universal e atual?

Heliodora: O comportamento humano básico continua o mesmo, e ele tem uma penetração na observação desse comportamento. Ele está sempre falando de problemas que continuam nos interessando.

Comunicação: A senhora lembra-se de montagens muito ruins e muito boas de Shakespeare?

Heliodora: Eu lembro de montagens ruins até mesmo na Inglaterra. No Brasil, eu já vi algumas bobagens. Mas lembro de algumas lindas, como o Romeu e Julieta do [grupo] Galpão de Belo Horizonte.

Comunicação: Há alguma encenação paranaense que merece ressalva?

Heliodora: Há muitos anos eu vi A Megera Domada aqui e foi muito divertido. Com Cláudio Corrêa e Castro, Nicete [Bruno] e Paulo [Goulart], no tempo do Teatro de Comédia do Paraná. [A encenação a que Bárbara se refere é 1964].

Comunicação: O trabalho de pesquisa sobre Shakespeare no Brasil já tem uma qualidade comparável com o feito em outros países, como a Inglaterra?

Heliodora: Algumas coisas são boas aqui, mas acho que eles têm outros recursos e mais conhecimento. Mas não sou daquelas que dizem que brasileiro não pode fazer Shakespeare. Pode sim.

Comunicação: No Brasil, Shakespeare se tornou elitizado?

Heliodora: Sim. Isso foi resultado de uma época do ensino, felizmente ultrapassada, em que os professores queriam ser privilegiados. E diziam assim: “Isso eu entendo, mas vocês não conseguirão”. Shakespeare, que não tinha muitas traduções, ficou nessa categoria. O que é uma ilusão, porque na verdade ele foi um autor popular. Agora que existem mais traduções e montagens, esse mito desapareceu.

Comunicação: O que a senhora acha dessas montagens que misturam a cultura brasileira com Shakespeare, como acontece com Os Dois Cavalheiros de Verona, do grupo Nós do Morro, do Rio de Janeiro?

Heliodora: Eu acho ótimo! Eu gostei muito de Os Dois Cavalheiros de Verona. Eles se apresentaram na Inglaterra e, lá, foram muito bem recebidos. A turma do Nós do Morro é excepcional. Eles têm um trabalho muito sério e fundamental.

Comunicação: O que levou a senhora à crítica teatral?

Heliodora: Eu sempre tive muita curiosidade sobre o funcionamento do teatro. Eu sempre fiquei muito fascinada com o grande milagre teatral, com a maneira como se construía uma peça, como uma página escrita se torna uma peça. Isso é a coisa mais fascinante no teatro. Meus amigos diziam: “Você precisa é fazer crítica, porque você está sempre examinando e quer sempre saber como é”. E eu comecei na crítica e lá fiquei. Além disso, eu ensinava História do Teatro.

Comunicação: Nesse trabalho se conquistam inimigos?

Heliodora: Também, mas não é uma coisa grave. Não acontece nada trágico.

Comunicação: Qual é a sua análise do teatro brasileiro hoje?

Heliodora: Eu acho que ele está em uma fase muito interessante. O teatro sofreu muito com a censura. Mas, passada a censura, ele tem renascido. Primeiro, com a fase do Besteirol no Rio, que muita gente acha uma bobagem, mas eu acredito que tem um grande mérito, por chamar o público de volta para o teatro. Inclusive, os próprios autores do Besteirol cresceram e fazem outras coisas. Mas o mais impressionante é a quantidade de autores brasileiros que estão aparecendo. É claro que eles não podem ser todos bons e nem a gente espera por isso, porque é uma fase de formação. E quanto mais se escreve, melhor fica.

Comunicação: E sobre a Chanchada?

Heliodora: Eu tenho horror à Chanchada. Barata, grossa e que deseduca. O Besteirol era inteligente e divertido, a Chanchada é a exploração do ruim, do barato, do palavrão à toa. Eu chamo isso de teatro que deseduca, porque leva o expectador a gostar do pior e explora o pior do expectador.



Enviar comentário


O conteúdo deste campo não será publicado.
*
Copyright © 2010 Comunicação. Desenvolvido por Célio Yano, Vítor Yano, Gabriel Brum e Tiago Capdeville
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização da equipe do Comunicação On-line | Login