Uma Curitiba
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A cidade é densa aqui de cima. Um cobertor branco se estende pelos horizontes, cobrindo as serras e vales que cercam a região da capital paranaense. A injusta alcunha de “cidade européia” somente se justificaria aqui dentro. Não pela paisagem, nem pela arquitetura, mas pela impressionante quantidade de italianos, alemães e franceses todo dia nesse lugar.
As serras mostram seus contornos, deitadas eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo. Já há algum tempo, elas observam à sua frente o planalto verde se transformar aos poucos em uma espécie de formigueiro, mas que não é sazonal. Perenemente instalado no lugar, ele cresce a cada ano. Tem um aspecto multicolor e está em constante atividade.
A Muralha, como era chamado o paredão imenso, que se estende de norte a sul, assistiu durante séculos a povoação e o projeto humano, concretizado nos dois sentidos. As referências que temos para nos orientar são os pontos cardeais, tamanho o embaraço que nos causa à mente ver tudo desse ângulo diferente e interessante, posto que completo.
Alfredo Andersen, se estivesse vivo, teria uma visão mais privilegiada do Marumbi, para compor algo como a Vista do Cadeado. Mas o pintor foi injustiçado pelo tempo. Daqui ele teria o privilégio de sentar com um cavalete e passar dias na composição do cenário majestoso. A sua Magnum Opus estaria completa, poderia até figurar em um painel imenso, como os de Poty. Seu gênio não teve a oportunidade de descortinar esse cenário.
O sol se pondo parece fogo em brasa nesse princípio de inverno. A fumaça que parece sair de suas chamas em São Luiz do Purunã se deva talvez ao ar seco que estamos todos submetidos por essa época. Menos as serras. Estas respiram o mesmo ar frio e úmido durante todo o ano. Também são banhadas com frequência por uma mão invisível que junta água do “laguinho” atrás delas e joga por todo o seu corpo, que por sinal está bastante esverdeado. O resultado é que nunca se queima no sol, apesar da constante exposição.
Várias luzes brancas, amarelas e vermelhas, por todo canto, mostram que a cortina está sendo fechada. É quase hora de ir embora. Lá em São José dos Pinhais um avião pousa regularmente. A Torre presta ao seu papel, o qual durante anos é o mesmo do já milenar ofício da Muralha: contemplar o grande altiplano. Nos convidam a fazê-lo também. Elevador. Desce. Oi?