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Jornal laboratório do curso de Jornalismo
da Universidade Federal do Paraná
Cultura | Publicada em 22/12/11 às 22h53

Dublador por Profissão

Pouco reconhecida, a arte da dublagem vai além de traduzir o idioma
Reportagem André Nunes
Edição Cássia Marocki
Divulgação
 O dublador João Krieger em ação: “Não basta ter voz bacana, é preciso saber improvisar”
O dublador João Krieger em ação: “Não basta ter voz bacana, é preciso saber improvisar”

A escolha entre ver um filme dublado ou legendado acaba sendo o único contato que a maioria das pessoas tem com a dublagem. O trabalho profissional por trás dessa técnica, porém, acaba passando despercebido. João Krieger estava se aprofundando no segmento artístico quando a dublagem entrou naturalmente na sua vida. “Sempre prestei muita atenção nos detalhes, tanto da dublagem ‘tradução’, quanto da ‘original’, em personagens caricatos de outros idiomas. Consequentemente, desenvolvi o gosto por imitar pessoas, praticar diferentes timbres e sotaques. Tudo isso contribuiu para que eu me tornasse dublador”, recorda Krieger, que hoje trabalha profissionalmente nesse segmento.

Reconhecida internacionalmente, a dublagem brasileira é bastante diversificada. Mônica Placha, diretora da Escola de Dublagem de Curitiba, aponta as qualidades nacionais em destaque. “Nosso ‘jeitinho brasileiro’ de fazer as coisas acontecerem, de um jeito ou de outro, aliado à nossa criatividade e musicalidade faz com que sejamos um dos melhores no segmento”, afirma.

Para ser dublador também é necessário ser ator, ou saber atuar. “É fundamental uma boa interpretação ao se trabalhar com dublagem. Por esse motivo, os profissionais devem obrigatoriamente trabalhar com artes cênicas, tendo ou não formação acadêmica na área”, comenta Placha.

Reconhecimento artístico

A dublagem profissional remete à década de 1920, com o surgimento do cinema falado pelo mundo. A princípio apenas em animações de desenhos animados a dublagem foi lentamente ganhando espaço, e chegou ao Brasil em 1938 com o filme Branca de Neve e os Sete Anões, dos estúdios Disney.

Mas apesar de ser quase centenária, a profissão do dublador ainda é pouco reconhecida. Sua importância para o bom funcionamento de uma adaptação, porém, é primordial. “O processo de dublagem precisa ser cuidadoso, do começo ao fim. Não acredito que apenas uma boa tradução do original garanta uma dublagem satisfatória. Tudo precisa funcionar perfeitamente bem, desde a tradução até a edição final”, declara Placha.

João Krieger, aluno de dublagem, lembra que, antes de se tornar ator, conhecia pouco sobre a realidade da profissão. “Na época, ferramentas como o Youtube não eram tão utilizadas, então só nos restava procurar materiais bônus em DVD’s de animação, que mostravam um pouco dos dubladores em ação. Hoje isso mudou, e é possível saber com mais precisão o que esperam de você numa empresa de dublagem”, afirma.

Técnica e atuação

Além do aspecto cênico de atuação, é necessário que o dublador tenha uma boa dicção, com pouco sotaque e regionalismo. Em relação às técnicas utilizadas durante o curso de dublagem, Mônica Placha descreve como é feito o processo. “Ensinamos aos alunos noções de técnica vocal, ressonância facial e alguns exercícios de relaxamento”.

Segundo Placha, uma boa impostação vocal é fundamental para se falar num tom adequado, sem que a voz saia com esforço excessivo, ou de forma rebuscada. “Trabalhamos a impostação de voz para que o dublador aprenda a falar sem machucar as pregas vocais, e o aparelho fonatório”, orienta.

Apesar de frequentemente ser chamado de institucional e publicitário, Krieger defende que o trabalho do dublador curitibano é tão profissional quanto qualquer outro do segmento. “A profissão é séria, com prazos de entrega, metas a serem cumpridas, como em toda empresa. Para isso é necessário muito profissionalismo, além dos fatores artísticos. Não basta ter uma voz bacana, é preciso ter confiança, conseguir criar e improvisar sempre que necessário”, afirma Krieger.

Dublagens polêmicas

A maioria dos cinéfilos garante que ver filmes legendados sempre é a melhor opção. Crítico de cinema, Márcio Santos defende esse ponto de vista. “Ver um filme com seu áudio original é ver a obra em sua essência, da maneira como foi pensada pelo diretor. Qualquer alteração na obra original é uma mutilação. As pessoas que realmente entendem que o cinema é uma arte não deveriam jamais preferir um filme dublado a um filme legendado”, declara.

Mas há exceções, até para os críticos. “Considero a dublagem aceitável em dois casos específicos: para crianças que ainda não aprenderam a ler, e para pessoas com problemas de visão, que não conseguem ler as legendas. Nesses casos, existem dublagens nacionais ótimas, como no filme O Rei Leão, tão bom quanto o original”, exemplifica Santos.

Outro ponto controverso são os palavrões e xingamentos. “De maneira geral, não fazemos uso de palavras de baixo calão na dublagem cotidiana. Isso só acontece quando o diretor responsável pede, dependendo do tipo de material, de como será veiculado, e do consumidor final”, afirma Placha.

Mesmo assim, Santos aponta desvantagens em se dublar xingamentos. “Se um filme é recheado de palavrões no idioma original, é porque ele não é feito para determinada faixa etária. Então, já que a dublagem é necessária, que se respeite pelo menos essa característica. Reduzir o peso dos xingamentos é mais uma deturpação que o filme não merece”, diz.



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