Na falta de eventos exclusivos, os festivais de cultura japonesa se tornam ponto de encontro para quem gosta de mangás e animes
Por Nicholle Murmel
Nos dias 19, 20 e 21 deste mês aconteceu a 19ª edição do Imin Matsuri. O evento comemora o aniversário da chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, e acontece todos os anos em Curitiba. O evento este ano foi no pavilhão de exposições do Parque Barigüi e contou com as atrações clássicas: comidas típicas, venda de artesanato e produtos diversos e apresentações de taiko (tambor), artes marciais, cerimônia do chá, karaokê e mais. Outra atração que faz sucesso nos festivais de cultura japonesa da cidade são os cosplayers: público geralmente jovem apaixonado por mangás (quadrinhos) e animes (desenhos animados) e que têm como passatempo se fantasiar como os personagens de suas histórias preferidas.
A palavra cosplay vem da junção dos termos ingleses costume: fantasia, e play: brincar ou atuar; e faz referência aos fãs de quadrinhos, livros, desenhos animados e seriados que se caracterizam como seus personagens prediletos e se apresentam em eventos e concursos especializados, especialmente os dedicados aos quadrinhos e animação japonesa. No Imin Matsuri deste ano, animes populares como Naruto e Vampire Kight foram os que renderam o maior número de cosplays; mas a escolha da história e do personagem não tem a ver apenas com a popularidade, e sim com a identificação pessoal entre o fã e a figura que será representada. “Você escolhe de acordo com a sua personalidade, o que o personagem tem que mais se aproxima de você”, comenta o estudante César Nyland. “Eu gosto do Hidan (personagem de Naruto) porque ele é bem louco, insano, e eu gosto do modo de ser dele; é mais uma questão e admiração”, explica Daniel Santos Carneiro, também estudante.
Para a montagem do cosplay o primeiro passo é um trabalho de pesquisa – só após um estudo detalhado de quem é o personagem, suas características físicas e psicológicas, seu visual, habilidades e o contexto onde ele está inserido, é que se parte então à etapa de confecção de roupas e acessórios. “É preciso pesquisar como funcionavam as coisas e ir achando as peças; partes sólidas como armaduras, e acessórios são as mais difíceis de achar, geralmente é preciso mandar fazer”, explica o estudante de design Fernando Souza. Essa costuma ser a parte mais delicada por dois motivos: primeiro, os custos, que podem ser elevados dependendo dos elementos que compões a fantasia, fator que também pesa na decisão da escolha de um personagem.
Outra possível complicação é que o processo de confecção das peças é quase que completamente artesanal; geralmente, o fã deve procurar uma costureira para fazer a roupa, e carpinteiros e outros artesãos para montar armas e acessórios que, na maior parte dos casos, são muito específicos e não se encontram à venda. “O mais difícil foi fazer o cabelo. Também precisei ir a uma costureira mandar fazer o roupão e a um marceneiro fazer a foice. Isso é o mais complicado, e também sai meio caro”, conta Daniel Carneiro.
Essas dificuldades técnicas são ainda mais comuns quando a fantasia escolhida não vem de um mangá ou anime tão popular, quando se trata de seres fantásticos como anjos, monstros e ciborgues, ou mesmo quando o personagem está inserido em um local e um momento histórico particular — é o caso da universitária e cosplayer Carla Cristina Stofel: “O personagem que eu escolhi é meu, original, eu me identifico com ela e por isso eu fiz o cosplay. Você faz um teatro livre; essa é a graça: montar um personagem que você gosta e se colocar na pele dele.” Muitas vezes, o próprio fã precisa tomar a iniciativa para concretizar o projeto. “No meu caso, é preciso pesquisar a história do Japão e nem sempre há fontes ricas sobre o assunto. Também é difícil achar quem costure roupas tradicionais japonesas; às vezes você mesmo tem que aprender a costurar, procurar moldes e fazer. Mas ao mesmo tempo, quando você vê o trabalho se desenvolvendo e chegando a um resultado, também é muito divertido”, completa a estudante.
Sobra público, mas faltam iniciativas
Outro problema que não apenas os cosplayers enfrentam, mas também os otakus (fãs de mangá e anime como um todo) é a falta de eventos dedicados exclusivamente aos mangás, aimes e j-music (rock e pop japonês) em Curitiba; ao contrário do que acontece em capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, que contam com eventos de repercussão nacional, como o Anime Friends realizado na capital paulista todos os anos no mês de julho, em Curitiba as tentativas mais próximas são os eventos organizados pelo grupo Anime XD, que desde 2006 promove anualmente o festival de mesmo nome; além do Chibi-Anime XD, uma versão menor que se repete mais vezes no ano.
Esses eventos vêm crescendo em termos de audiência, bem como de expositores e comerciantes interessados, além de angariar apoio de entidades ligadas à comunidade japonesa, como o Clube Cultural Japonês Tomodachi, o Clube Nikkei de Curitiba e o Consulado do Japão em Curitiba. No entanto, a falta de locais de fácil acesso, datas fixas, divulgação adequada e melhor infra-estrutura fragilizam a formação de um circuito de festivais que satisfaçam a comunidade otaku de Curitiba, (incluindo aqui os cosplayers), que ainda recorre aos Matsuris como pontos de encontro. “Falta lugar, parece que não querem ajudar a fazer. Com certeza há público; se quisessem fazer um evento grande, seria possível, mas falta vontade”, lamenta César Nyland.
As dificuldades no processo de estruturação dos eventos exclusivos para a cultura pop japonesa não se deve à falta de interessados, como comprovam os números da edição 2008 do Anime XD, realizada em agosto daquele ano: foram contabilizados 3.200 visitantes nos três dias de festival. O problema, segundo os próprios fãs, é a precariedade na organização, que precisa de mais incentivo “Público com certeza tem. Mas a maior parte dos eventos é feita pelo pessoal que gosta. Falta apoio na organização com caráter profissional”, afirma Carla Stofel.
Não apenas os otakus e cosplayers perdem por terem quase que apenas os Matsuris, mas os próprios festivais também se prejudicam, pois acabam descaracterizados. “O matsuri perdeu o caráter tradicional justamente porque falta apoio para quem gosta de anime e mangá no sentido de fazer eventos próprios, que aqui em Curitiba são incipientes. A maioria dos que vêm ao festival são os interessados em anime, mangá, karaokê. Se tivesse um evento adequado, diminuiria o atrito entre a cultura pop e a tradicional dentro do matsuri”, pondera a estudante.
Como surgiram os matsuris em Curitiba
Os eventos curitibanos voltados à cultura japonesa tradicional no formato como são conhecidos hoje foram idealizados pelo já falecido artista Claudio Seto. Conhecedor profundo de diversas tradições do Japão, o quadrinista se inspirou nas festas típicas daquele país para criar os matsuris na forma atual; o próprio termo “matsuri” significa festival em japonês.
As três maiores festas em Curitiba são o Hana Matsuri (Festival das Flores), que comemora o nascimento de Buda, e acontece entre o fim de março e o começo de abril; o Imin Matsuri (Festival do Imigrante), sempre próximo ao dia 18 de junho, data em que o navio Kasato Maru chegou ao porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes japoneses; e o Haru Matsuri (Festival da Primavera), realizado em setembro para marcar a chegada da estação das flores. A realização fica por conta da Comunidade Nipo-Brasileira de Curitiba, com organização da Associação Beneficente Nipo-Brasileira de Curitiba e apoio da prefeitura da cidade.
Cosplay: um passatempo levado a sério
Ao contrário do que se pode pensar, a prática do cosplay não surgiu no Japão e nem está ligada apenas à cultura pop desse país.
A atividade surgiu nos Estados Unidos, em convenções de histórias em quadrinhos ainda nos anos 70. No começo, os fãs se fantasiavam, pois em alguns casos podiam entrar de graça nos eventos; mas aos poucos a prática foi se tornando habitual, e os cosplayers passaram a ser uma atração forte, especialmente em festivais temáticos de séries e filmes como Star Treck (Jornada nas Estrelas) e Star Wars (Guerra nas Estrelas), quando começaram a ser feitos os concursos que avaliavam não apenas as fantasias, mas também a interpretação de cenas. Depois de se popularizar rapidamente, o cosplay chegou à Comiket, convenção de quadrinhos famosa no Japão, e a partir daí a atividade se espalhou e se tornou mais associada aos eventos de mangá, anime e videogames.
Aqui no Brasil, já nos anos 80 os fãs de Star Treck e de RPG (Role-playing Games) já adotavam a prática de se caracterizar como seus personagens queridos, porém, sem mais critérios ou especificidades, já que o termo cosplay ainda estava se espalhando pelo mundo. Ao final dos anos 90, com a popularidade extrema de animes como Cavaleiros do Zodíaco, o hobby se intensificou no país, ganhando mais rigor técnico e os concursos que já faziam sucesso em outros países. Antes, o passatempo era quase que restrito aos fãs de anime, mangá e j-music, mas hoje outras modalidades incorporaram a atividade, e é possível ver cosplayers de personagens de grandes franquias de livros e filmes, como Harry Potter e Piratas do Caribe.
O maior concurso de cosplay do país acontece dentro do Anime Friends, organizado pela Yamato Comunicação e Eventos; foram mais de 1.200 competidores inscritos na edição de 2007. A Editora JBC, especializada em mangás e publicações voltadas à comunidade nipônica, é a responsável pela organização da etapa brasileira do World Cosplay Summit (WSC), maior competição do gênero no mundo; das 15 duplas de cosplayers inscritas, uma é selecionada para representar o Brasil na final mundial, que acontece no Japão. A seleção deste ano aconteceu no último dia 20.
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